Muitas das vezes que converso com pessoas que assim como eu estão iniciando sua sadhana percebo que esse processo é sempre mais difícil quando a família e os amigos do aspirante não são praticantes. É ainda mais complicado quando o grupo de pessoas que nos cercam desconhecem completamente o caráter espiritual do Yoga. Não é raro ouvirmos histórias de pessoas que abriram mão de suas idéias e sonhos para não frustrarem as expectativas da família dos amigos ou de pessoas no trabalho. Fazemos isso pois buscamos sempre a aceitação do grupo. Queremos ser amados e admirados pelas outras pessoas. O fato é que nós, como seres sociais, temos a tendência de repetir o comportamento e os padrões do grupo que nos cerca, principalmente daqueles com quem nos identificamos.

Talvez por ser tão complicado entender quem nós somos realmente, procuramos algum tipo de segurança no grupo e na unanimidade. Afinal, se todo mundo concorda deve ser o certo. O maior problema dessa perspectiva é o fato de que a unanimidade não existe em uma escala muito grande. Daí as pessoas dividem-se de acordo com aquilo que acreditam e entendem ser a sua opinião, ou a opinião desejável dentro de seu grupo, cultura ou classe social. Criam instituições de defesa e difusão do seu pensamento e estilo de vida.

Hoje em dia, graças a um processo histórico que nos levou a valorizar muito o aspecto econômico das nossas vidas o consumo passou a ser uma coisa muito importante para a maioria das pessoas. As empresas cresceram em escala global tornando-se muitas vezes mais poderosas do que os próprios Estados Nacionais. Com o advento de tecnologias de comunicação e o desenvolvimento e sofisticação da indústria da publicidade essas corporações ganharam ainda mais força difundindo um novo estilo de vida cuja principal meta é o consumo. Todos os dias são criadas novas demandas para um mercado ávido por novidades.

Sem que percebêssemos as campanhas publicitárias passaram a interferir em nossas decisões e influenciar o nosso comportamento. Durante alguns anos trabalhei como professora em um projeto da UFRJ. Eu e meus alunos da formação técnica em áudio-visual pesquisamos diferentes abordagens em anúncios do setor alimentício. Foi muito interessante perceber que com passar dos anos grande parte dessa indústria deixou de enfatizar em suas campanhas o valor nutricional de seus produtos ou a sua qualidade e adotou uma abordagem que exaltava o prestígio e o status de seus consumidores. Chamou-me a atenção particularmente uma campanha de tv da coca-cola que dizia em seu anuncio: “Quem bebe coca-cola está sempre na moda”. (Veja esse vídeo em: http://www.youtube.com/watch?v=DcuUJP9NZFw ). No fundo o que esse comercial representa é a mentalidade difundida pelas corporações de que para sermos aceitos, admirados e amados precisamos consumir determinados produtos ou seremos para dizer no mínimo pessoas cafonas ou fora de moda.

Tomei a liberdade de copiar um trecho do artigo do professor de filosofia Mario Sérgio Cortella “A mídia como corpo docente”:

“É preciso, porém, observar um fenômeno que explodiu nos últimos 20 anos: uma criança dos centros urbanos, a partir dos 2 anos de idade, assiste à televisão, em média, durante 3 horas diárias, o que resulta em mais de 1.000 horas como espectadora durante um ano (sem contar as outras mídias eletrônicas, como rádio, cinema e computador). Ao chegar aos 7 anos, idade escolar obrigatória, ela já assistiu a programação televisiva por mais de 5.000 horas. Vamos enfatizar: uma criança, no dia em que entrar no ensino fundamental, pisará na escola já tendo sido espectadora de mais de 5.000 horas de televisão!”

Imaginem meus amigos que boa parte de toda essa informação vem carregada de propagandas dizendo para as crianças como devem agir pensar e principalmente o que devem consumir. Esse sistema que apoiamos de forma tão entusiasta transforma tudo em produto e todos nós em mera estatística, e é claro em cifras. Nunca podemos esquecer que a mídia é patrocinada por empresas e que a principal função das empresas no mundo atual é lucrar. Que a lógica das grandes corporações é promover aquilo que é melhor para aumentar o faturamento e não necessariamente o que é melhor para os consumidores e para o nosso planeta. Acho que isso não é novidade para ninguém. Mas se todos nós sabemos disso, por que será que permitimos que esse tipo de instituição determine o que é bom ou ruim para nós? Deixo a questão em aberto…

Nem mesmo nosso velho e bom Yoga ficou de fora desse sistema. Pois é… Praticar Yoga está na moda! Hoje temos produtos de todos os tipos para praticantes de Yoga. Não estou falando somente dos mats, blocos, fitas e essas coisas que ajudam tanto a nossa prática. Hoje temos roupas de grifes, restaurantes, spas e até mesmo séries de TV com essa temática. Quem diria?

É muito bacana a difusão do Yoga nos meios de comunicação. Se é para falar de algum assunto na TV e na internet que seja de algo construtivo como o Yoga. Os instrutores de Yoga também agradecem a boa colheita. Mas preocupa-me um pouco que toda essa badalação transforme o Yoga, empobrecendo-o, contaminando-o com toda essa mentalidade comercial que valoriza o ter, o consumir. O Yoga não é e não pode ser um produto. É possível pagar por aulas de Yoga, tratamentos com ayurveda, é possível também comprar camisetas que dizem “eu pratico Yoga”e até viagem para Índia com estadia em ashrams maravilhosos. Mas nada disso será Yoga se não houver a atitude interna do Yoga. Muito longe de ser um produto o Yoga é um processo espiritual de transformação.

Como falamos anteriormente, nós humanos temos a necessidade de pertencer a um grupo ou comunidade definidos. Muitas vezes surge nas pessoas a necessidade de afirmar esse vinculo. Quando comecei a fazer Yoga fiquei tão feliz e orgulhosa de minha descoberta que queria dizer isso para todo mundo. Naquela época eu não fazia idéia do que era Yoga e nem de que alongar o corpo em cima de um mat não era nada além de alongamento em cima de um tapetinho emborrachado. Muito mais importante do que a imagem exterior que se pretenda passar, dos belos ásanas que façamos na aula, ou do que postamos no facebook e no you tube é a nossa postura interior perante o mundo, são os nossos atos, nosso posicionamento diante dos problemas e das nossas limitações que vão dizer que tipo de pessoa somos. Somente quando passarmos a vivenciar o Yoga internamente e não superficialmente é que superaremos a nossa necessidade de sermos aceitos, pois seremos capazes de aceitar a nós mesmos conhecendo a nossa verdadeira natureza. Saberemos que não há rejeição ou aceitação. Que não há um eu para ser aceito ou não. Para ser amado ou não. Há somente Deus.

Namastê!

Mariana Cordeiro

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