O nome do primeiro estágio dentre os oito do caminho do yoga é yama, que Patañjali usou para descrever um conjunto de restrições sobre as quais escolhemos concentrar nossos esforços, a fim de direcionar nossa caminhada em direção à libertação final (kaivalya), dando-nos a autodisciplina necessária para cumprir nosso dharma ou propósito de vida.

Os cinco yamas – gentileza, honestidade, abundância, continência e auto confiança são orientados em direção ao nosso comportamento social e nos permitem coexistir harmonicamente com os outros.

A melhor maneira de ensinar os yamas – talvez a única real – é viver de acordo com eles. Neste sentido escreveu Karl Menninger: “o que o professor é, é mais importante do que o que ele ensina”. Se praticamos nossas ações e nos comportamos de acordo com os yamas, tornamo-nos um modelo para nossos estudantes e, deste modo, ensinamos os yamas sem sequer precisar tentar.

Ainda assim, há algumas maneiras específicas de integrar debates sobre os yamas em uma aula de āsanas.

Ahiṁsā – tradicionalmente significa não matar ou ferir pessoas, mas isto pode ser ampliado para significar que não devemos ser violentos em nossos sentimentos, pensamentos, palavras ou ações. Basicamente ahiṁsā significa ser compassivo consigo mesmo e com os outros, ser gentil e tratar com cuidado todas as coisas.

Em sala de aula frequentemente podemos observar nossos alunos sendo violentos consigo mesmos, empurrando-se adiante quando deveriam estar voltando atrás, lutando quando precisam render-se, forçando seus corpos a fazer coisas que ainda não estão preparados para fazer.

Quando nos deparamos com este tipo de conduta em classe, é o momento oportuno para trazer à baila o tópico ahiṁsā e explicar que, quando cometemos violência contra nossos corpos, na verdade não o estamos mais ouvindo. Quando nos forçamos, não estamos mais sentindo. Inversamente, quando o estamos sentindo, não podemos forçá-lo. Violência e sabedoria não podem coexistir.

Um dos propósitos centrais do yoga é cultivar o sentimento e a sabedoria no corpo e a violência somente conduz ao resultado oposto.

Satya significa veracidade ou não mentir. Praticar a verdade significa ser honesto com relação aos nossos sentimentos, pensamentos, palavras e obras. Significa ser honesto consigo mesmo e com os outros.

Quando um aluno com quadris rígidos, que não consegue fazer uma retroflexão, estufa o peito a fim de simular uma bem feita, isto é uma mentira.

Isto é ser desonesto porque uma parte do corpo dele não está realmente fazendo a postura. Ensine seus alunos a sempre se certificarem de estarem sendo honestos e a trabalhar dentro de seu próprio nível, sem desculpas. Encoraje-os a olhar para o todo da postura e não apenas para as partes que envaidecem (e nem somente para os nossos limites, para o que fazemos mal). Ensine-os que uma postura é cara demais, se obtida ao custo de ahiṁsā e satya.

Asteya, ou não roubar, refere-se ao roubo que nasce da crença de que não podemos conquistar aquilo de que necessitamos. Roubamos, furtamos ou nos apropriamos indevidamente porque percebemos erroneamente o universo como insuficientemente abundante ou porque pensamos que não há o suficiente para todos e que não receberemos na medida do que damos. Por isso, asteya consiste não somente de não roubar, mas também de desenraizar nossas crenças subconscientes de falta e escassez que causam ganância e acumulação em todas as suas manifestações.

Quando os alunos se seguram em uma postura ou quando eles não trabalham a postura em sua plena capacidade, pode se dever ao medo de não ter energia suficiente para a próxima postura. Ensine a seus alunos que cada postura cria a energia necessária para ser executada e também à próxima postura, não havendo razão para economizá-la.

Brahmacarya é praticada quando escolhemos, conscientemente, usar nossa força vital (especialmente nossa energia sexual) para expressar nosso dharma, em vez de dissipá-la frivolamente na perseguição infinda de prazeres efêmeros.

Brahmacarya nos lembra que nossa força vital é limitada e preciosa, e que a atividade sexual é uma das formas mais rápida de gastá-la. Como yogis, escolhemos utilizar o poder que está por trás da sexualidade para criar, para cumprir nossa missão, para encontrar e prazerosamente expressar nosso ser interior.

A prática de brahmacarya não é uma forma arcaica de moralização, mas um lembrete de que, se usarmos nossa energia com sabedoria, possuímos os recursos  para viver uma vida de plenitude.

Podemos ensinar brahmacarya ajudando nossos alunos a aprenderem a usar o mínimo de energia para alcançar o máximo resultado. Ensine-os a não usar os músculos menores para fazer o trabalho dos músculos maiores e a trazer suas mentes para as posturas, de forma que seus corpos não se fatiguem, bem como sintonizar linhas de força e poder interno que irão somar energia a suas vidas.

Ensine seus alunos a manter a concavidade de seu abdômen elevada em todas as posturas e explique que é isto que conserva a força vital. Diga a eles que o baixo abdômen joga fora nossa energia vital diante de nós. Porém, uma vez conservada, essa energia pélvica pode ser canalizada para cima em direção ao coração.

Desta forma, podemos ensinar continuamente bramacarya em sala de aula, encorajando os alunos a elevar a energia pélvica em direção ao centro do coração, a morada do Si-mesmo, que é o verdadeiro propósito da prática completa do yoga.

Aparigraha significa não cobiçar o que não nos pertence. Distingue-se de asteya, que nos requer evitar a apropriação indébita motivada pela ganância decorrente da percepção de escassez, porque aparigraha deita suas raízes na inveja.

A inveja significa que desejamos ser o que outra pessoa é ou a ter o que outra pessoa tem. Em vez de descobrirmos quem somos, copiamos outra pessoa. Aparigraha, em essência, nos auxilia na descoberta de nosso verdadeiro ser, de modo que não sintamos mais a necessidade de cobiçar o que outra pessoa tem ou de ser o que outra pessoa é.

Ensine seus alunos a sempre praticarmos sozinhos, mesmo que em uma aula cheia. Diga para não olharem para os outros e não compararem. Quando comparam, começam a cobiçar a forma como outros alunos executam os āsanas. Diga que mantenham o olhar voltado para dentro: deste modo estarão trabalhando em seu próprio corpo, dentro de sua própria capacidade e sem cobiçar o que outrem tem.

Gentileza, honestidade, abundância, continência e auto-confiança – viver e lecionar esses yamas nos coloca no caminho de praticar todo o escopo da disciplina do yoga, uma aproximação à busca interior que nos torna plenos.

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