Entrevista concedida por Pedro Kupfer a revista argentina Yoga +
Extraída do site www.yoga.pro.br

1) Como você chegou ao Yoga?

Quando adolescente, um amigo me apresentou um livro do filósofo Alan Watts que mencionava o Yoga e a meditação sobre o mantra Om. Por algum motivo, esse breve texto me marcou: chamou muito a atenção e resolvi que iria me dedicar a praticar aquilo. Pareceu-me algo nobre, um motivo justo e adequado ao qual dedicar a vida. E lá se vão mais de trinta anos.

2) Como você vive o Yoga atualmente?

Creio que de uma maneira bastante mais madura, tranquila e consciente que no início. Com o tempo, as ilusões e fantasias que a gente se fazia no começo deram lugar a uma visão mais realista e centrada do que é o Yoga, bem como na maneira em que ele funciona.

3) Sempre teve esta relação com o Yoga ou ela foi mudando ao longo do tempo?

Sinto que passei por várias fases diferentes. No início não compreendia o que tinha em mãos, mas me sentia muito atraído por tudo o que tivesse cheiro de Yoga. Praticava meio que cegamente mas, felizmente, muito bem guiado pelo meu excelente professor Janardhana, do Satyananda Niketan, de Montevidéu.

Depois, veio o entusiasmo com a kundalini, a busca pelas experiências transcendentais. Talvez esta fase tenha sido a mais conturbada, pois pensava que moksha, o objetivo do Yoga, era uma experiência e não uma maneira de ver as coisas. Se a pessoa pratica baseando-se em crenças deste tipo, não vá muito longe e, cedo ou tarde, se frustra, abandona o Yoga e vai buscar outra coisa.

Depois, quando conheci meu guru, Swami Dayananda Saraswati, tive o privilégio de adquirir uma visão mais racional e centrada, mais objetiva, a partir da qual, como reza o ditado, parei de “pedir peras ao ulmeiro”. Essa última fase começou há um pouco mais de uma década e, apartir desse momento, sinto que a prática está avançando a passos largos, pois está alicerçada no estudo e no proceso de autoconhecimento, sem os quais o Yoga não pode funcionar.

4) Cada vez mais gente pratica Yoga, faz formações, etc. Mas isso nem sempre se traduz em condutas compassivas ou em respostas amorosas. Será que o Yoga está se tornando mais um objeto de consumo, entre tantos outros?

Talvez sim. Depende de como enxergarmos a situação. Sempre houve e sempre haverá pessoas que se dedicam ao Yoga como forma de encontrar um significado mais profundo e uma direção mais clara na vida. Quando o Yoga se torna uma moda, surge, paralelamente a esse tipo de buscador espiritual genuíno, outro tipo de praticante que busca o Yoga por outras razões: adquirir boa-forma, administrar o estresse, dormir melhor, produzir mais.

Este segundo tipo de praticante merece todo o respeito e a consideração da parte dos mumukshus, dos buscadores da liberdade porque, como já ensinava o grande mestre Shivananda, não importa qual é o motivo que leva a pessoa a praticar. O que importa, sim, é que, através da prática, ainda quando centrada nos efeitos secundários, é sempre uma porta de entrada para o processo de conhecer a si mesmo e, consequentemente, para a liberdade.

5) Para que praticamos Yoga?

Para retirar o véu que ofusca a nossa visão. Para sermos livres. Para descobrir que a felicidade que estamos buscando é algo que já somos.

6) Qual é o sentido de se contorcer, de ficar de cabeça para baixo ou sobre as mãos?

Esses exercícios, chamados ásanas e mudras, se fazem como meio de reflexão sobre o que somos. O processo do Yoga tem três etapas, chamadas shravanam, mananam e nididhyásana, respectivamente. Shravanam, a primeira, consiste em escutar o ensinamento (“já somos a felicidade que estamos buscando” é um bom resumo).

Logo vem a etapa do questionamento, das dúvidas e perguntas, que se chama mananam, ou “usar a mente”. Para isso, precisamos estar em presença de um professor que possa responder nossas dúvidas.

Uma vez esclarecidas, passamos ao nididhyásana, o momento da reflexão sobre o que somos, ou sobre o que sabemos sobre o que somos. Para isso, com essa finalidade, existem e se praticam (ou deveriam se praticar) todas as técnicas do Yoga, das posturas à meditação, dos respiratórios aos mantras.

7) Qual é a diferença entre praticar Yoga e viver Yoga?

Isso é muito subjetivo e vai depender de quem responda a pregunta. Se formos ver o Yoga como uma maneira de reflexão que se estende desde os exercícios fisiológicos, energéticos ou meditativos a todos os aspectos do cotidiano, podemos dizer que não existe diferença entre praticar Yoga e viver Yoga. É a mesma coisa.

8) A maior parte das pessoas somente trabalha o Hatha Yoga, ou seja o Yoga postural. Ele é só a ponta do iceberg? Há algo a mais?

Esta é uma pergunta interessante, que mostra de quê maneira a opinião pública está confundida em relação ao Yoga, bem como à maneira em que funciona. Hoje em dia, as pessoas imaginam que Yoga seja ficar de cabeça para baixo ou noutras posições excêntricas. Na pergunta, se equipara o Hatha Yoga com “Yoga Postural” mas, na verdade, o Hatha é muito mais que apenas praticar ásanas.

A única diferença que existe entre o Hatha Yoga e o que já existia antes de seu nascimento (o que aconteceu uns mil e poucos anos atrás) é que o Hatha usa o corpo como instrumento de reflexão e meditação, de uma maneira que não havia sido explorada anteriormente.

Afora esse detalhe, o resto da tradição é monolítica e uniforme. O que se ensinava antes do Hatha em termos de visão de si mesmo não mudou depois que as práticas físicas, energéticas ou sutis foram integradas à cultura e ao modo de viver que acompanha o Yoga desde sempre.

Quando penso que Yoga é Hatha, e que Hatha é postura, chego à conclusão que Yoga é repetir posturas. Isto é tão equivocado como pensar que, se existe um exercício no Yoga que consiste em contrair os esfíncteres, qualquer pessoa que contraia os esfíncteres estará praticando Yoga. Para poder chamar Yoga de Yoga, precisamos compreender que ele é uma visão libertadora do ser humano, que inclui maneiras diferentes de colocar essa visão na prática e, principalmente, no cotidiano da pessoa.

9) Se o Hatha tem como objetivo final preparar o corpo para a postura de meditação, por que não irmos diretamente a esse final?

O resultado não é o mesmo. Nesse processo, em que o corpo tem um grande protagonismo, não se incluem apenas ações e resultados físicos. Há um efeito muito grande destas práticas sobre o corpo sutil, sobre os caminhos da energia vital, bem como nos padrões mentais e crenças que surgem deles.

Assim, as práticas do Hatha Yoga não se limitam a condicionar o físico para que possamos nos sentar com mais conforto para meditar ou para que possamos dormir melhor ou render mais no trabalho. O verdadeiro objetivo está em dissolver as couraças de tensão sutil, que determinam tanto as limitações do movimento do físico como os padrões mentais automáticos que regulam uma boa parte das nossas vidas.

Nesse sentido, o Yoga trabalha de maneira similar à medicina chinesa, no sentido de “limpar” o corpo de energia de bloqueios, ausências o excessos de força vital que podem, por sua vez, provocar desequilíbrios na saúde e limitações em relação àquilo que acreditamos ser possível fazer na vida.

Noutras palavras, a prática de Hatha Yoga, desde que feita com a atitude correta, pode nos ajudar a mudar a perspectiva que temos de nós mesmos, de nosso papel na ordem das coisas e da maneira que enxergamos a nossa própria vida.

10) O Yoga como caminho propõe muitas mudanças nas vidas nas pessoas que o trilham, nos hábitos, na alimentação, etc. Que sentido tem tornarmo-nos outra pessoa para voltar a ser o que sempre fomos?

Creio que a gente não se torna “outra pessoa”. A pessoa continua sendo a mesma, mas vai fazendo naturalmente alguns ajustes, melhorando ou corrigindo o que for preciso em relação aos próprios hábitos. O caráter, a personalidade e o temperamento não são rígidos e mudam sutilmente, o tempo todo. William James, um filósofo inglês, disse uma vez que a pessoa tem tantas personalidades em si mesma, quantas pessoas ela conhece.

Noutras palavras, os hábitos, crenças, cultura e modo de viver, embora importantes, são sempre relativos, nunca essenciais. A gente não é o que pensa. A gente não é o que faz. A gente não é um conjunto de hábitos. A gente não é um nome ou uma dieta. Se eu permanecer aberto ao novo, questionando o que se me apresenta como correto ou como incorreto, posso escolher com liberdade, posso assumir a responsabilidade por meus atos de maneira íntegra e independente.

Agindo desta maneira, sem colocar as decisões que tomo ou a responsabilidade pelos frutos das ações que realizo nas mãos de algum costume ou alguma forma de comportamento padronizada, sou um humano livre. Resumindo, o praticante precisa reconhecer que muito do que pensa ser seu, são apenas crenças da cultura ou a sociedade donde ele nasceu. Se essas crenças forem nocivas, o yogi dá a si mesmo o direito de trocá-las por outras, construtivas ou neutras.

11) Qual é o selo que identifica o Yoga que você pratica?

Atualmente, há uma excessiva preocupação com os rótulos. Precisamos nos “posicionar” para melhor identificar o que fazemos, dada a variedade de sistemas que surgiram nas últimas décadas. Bom, da minha parte, posso dizer que não concordo com o uso que se faz desses rótulos e assim, optei por não usar rótulo algum.

Quando soube que existiam vários métodos de Yoga (Tantra, Mantra, Kundalini, etc.), lembro de ter perguntado ao meu professor Janardhana: “qual é o Yoga que nós praticamos?” Ele me respondeu: “Yoga”. Essa resposta é muito boa e clara, e continuo usando-a hoje em dia quando me fazem essa pergunta.

Não existem métodos diferentes, mas etapas distintas dentro de um único caminho, que é o processo de crescimento interior de cada um. Assim, Karma Yoga, Bhakti Yoga, Jñana Yoga, Hatha Yoga, são apenas momentos ou fases dentro desse processo maior que podemos chamar vida de Yoga.

Quando a gente fica em contato com a tradição, aprendendo dentro dela, tem que ter especial cuidado para não modificar nada, não inventar nada, não rotular nada, pois tudo já está pronto, todo está já perfeitamente bem elaborado, tanto para praticar como para ensinar e transmitir. Esse é o motivo pelo qual muita gente que começou a praticar e estudar Yoga antes da presente moda que estamos vivendo, se nega a usar rótulos que identifiquem uma forma de Yoga específica. Somente existe um Yoga.

12) É o mesmo que você ensina?

Sim, claro. A gente não deve ensinar o que não pratica, nem deixar de praticar o que ensina. Namaste!

Pedro Kupfer nasceu em Montevideu, e considera o Yoga mais uma visão transformadora que inclui uma forma de viver, do que uma atividade que simplesmente se faz dentro de uma sala. Teve o enorme privilégio de ser aceito como discípulo de Swāmi Dayānanda e estuda dentro da tradição do Advaita Vedānta. Viaja assiduamente para a Índia há mais de 25 anos para continuar seus estudos. Ministra curso de formação em yoga  no Brasil e em Portugal há mais de 12 anos. Seu site www.yoga.pro.br possui o mais completo acesso aos textos tradicionais do yoga, assim como seus ensinamentos.

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