Nas aulas de yoga contemporâneas, frequentemente os professores falam sobre os Yoga Sūtras de Patañjali, um texto filosófico compilado cerca de 2 mil anos atrás, como o manancial da prática. Isto requer um salto de imaginação, porque os yoga sūtras falam quase nada sobre as posturas; sua prioridade máxima é o trabalho da mente. Os sūtras dizem que yoga “é a contenção das flutuações da consciência”. A completude de sua orientação sobre as posturas é que elas devem ser “constantes e confortáveis”.

As instruções sobre as posturas, ou āsanas, surgem muito depois, nos textos medievais influenciados pelo tantra, como o Haṭḥa Yoga Pradīpikā. Mesmo nesses trabalhos, contudo, não vamos encontrar muitas das posturas ensinadas hoje como yoga. Quinze posturas aparecem no Haṭḥa Yoga Pradīpikā, a maior parte delas sentada ou supinada. Não há saudações ao Sol, nem adho mukha śvānāsana (cachorro olhando para baixo) ou virabhadrāsana-s (guerreiros).

Há instruções sobre como dirigir o sêmen descarregado de volta ao pênis, de forma a superar a morte, e para separar o tendão que conecta a língua à base da boca e estendê-la de modo que ela possa tocar a testa.

Antes do Século XX, tanto ocidentais quanto indianos educados tendiam a desdenhar as práticas ocultas designadas pelo termo haṭḥa yoga.”Não temos nada a fazer com isto aqui, porque suas práticas são muito difíceis e não podem ser aprendidas em um dia e, afinal, não conduzem a tanto crescimento espiritual”,escreveu Swāmi Vivekānanda, que muito fez para popularizar a filosofia do yoga no Ocidente, por meio de seu livro de 1896, Rajā Yoga. Somente na Era Moderna o haṭḥa yoga foi transformado em sistema acessível completo para a saúde e o bem estar. A figura central desta transformação foi B. K. S. Iyengar, o autor da bíblia do yoga Luz sobre o Yoga (Light on Yoga, 1966), agora traduzido e publica em português, falecido no dia 20 de agosto deste ano (2014).

B. K. S. Iyengar mantinha seu instituto, R. I. M. I. Y., em Pune, Estado de Maharastra, a Índia, uma cidade cerca de 160 km ao sul de Mumbai, onde alunos vindos de todos os lugares do mundo iam estudar com seu reverenciado mestre, guru.

Em 1934, quando Iyengar contava dezesseis anos, ele foi enviado para morar com sua irmã e seu cunhado, Krishnamacharya, em Mysore. Ele chegou em uma época de grande desenvolvimento do yoga moderno. Krishnamacharya, um brilhante acadêmico que sacrificou sua respeitabilidade para trilhar o caminho do haṭḥa yoga, esteve na dianteira desse movimento. A convite do progressista maharāja de Mysore, um patrono das artes indianas e ávido esportista, Krishnamacharya dirigiu a shala (escola) do palácio, onde lecionava a cultura física do yoga aos meninos da realeza.

O sistema criado lá por Krishnamacharya desenhou o haṭḥa yoga, assim como a ginástica e a luta tradicional indianas. No livro do acadêmico Mark Singleton, Yoga Body: The Origins of Modern Posture Practice, ele conclui que o método de Krishnamacharya era uma síntese de vários métodos de treinamento físico anteriores ao seu tempo, que teriam caído bem em qualquer definição fora do yoga.

Iyengar conta que Krishnamacharya podia ser feroz e exigente, que tinha uma personalidade amendrontadora e cuja severidade das ações era difícil de esquecer. Logo após a chegada de Iyengar em sua casa, o melhor aluno de Krishnamacharya fugiu, às vésperas da conferência da Y. M. C. A, no palácio, onde estava incluída uma apresentação de posturas do yoga. Precisando de alguém para fazer a demonstração, Krishnamacharya recrutou seu jovem parente, ordenando que aprendesse uma série de posturas difíceis. Embora fraco e rígido, Iyengar fez o melhor que podia, lesionando-se severamente, mas impressionando a audiência. Depois disso, ele frequentemente fazia as demonstrações para seu cunhado.

Krishnamacharya por fim enviou Iyengar para ensinar em escolas e ginásios em Pune. Iyengar trabalhou duro como instrutor; Ele sabia, por experiência própria, os perigos de submeter alguém a posturas prematuramente, e dedicou-se a desenvolver um tipo de yoga cujo desenvolvimento fosse mais lento, mais preciso anatomicamente e preciso, utilizando acessórios como blocos e mantas para auxiliar os estudantes a encontrar o alinhamento correto. Ao mesmo tempo desafiador e terapêutico, o sistema de yoga de Iyengar tornou-se enormemente popular no Ocidente, em parte graças ao apoio do violinista Yehudi Menuhin e soma cerca de 1.500 estúdios de Iyengar yoga, espalhados em mais de 70 países,

Menuhin, que desenvolveu interesse pelo yoga depois de encontrar um livro sobre o tema na sala de espera de um osteopata, encontrou-se com Iyengar quando fazia um tour na índia, em 1952. O violinista sofria de toda sorte de dores musculares e esqueléticas, que não lhe permitiam dormir e relaxar e que teriam sepultado sua carreira de violinista. Os ensinamentos de Iyengar tiveram um profundo efeito sobre ele: em 1953, na revista Life, em uma história chamada O Yoga de Yehudi, ele disse que o yoga o conduziu a um ponto de ruptura em sua arte, e foi ainda mais importante para ele do que sua prática de violino.

Nenhum outro professor de yoga foi tão influente quanto Iyengar. Seu livro Light on Yoga, com prefácio de Menuhin, foi traduzido em 18 idiomas, conta cerca de 60 edições, permanece sem paralelos como um guia para a prática de āsanas. Como redigido em um tributo a ele no Yoga Journal, quando os “professores se referem à maneira correta de executar uma postura, geralmente estão se referindo o alinhamento ensinado e demonstrada com perícia pelo Sr. Iyengar em seu livro”. No Light on Yoga, Iyengar descreve o yoga como “uma ciência prática atemporal desenvolvida ao longo de milhares de anos, que lida com o bem estar físico, moral, mental e espiritual do homem como um todo”, e diz que o Yoga Sūtras de Patañjali é o “primeiro livro a sistematizar a prática”.

Entretanto, de fato, foi ele, Iyengar, quem descobriu como mostrar às pessoas por todo o mundo a maneira mais segura de equilibrar-se sobre a cabeça e possibilitou que o yoga fosse acessível para toda e qualquer pessoa, independentemente de suas habilidades e condições físicas. B. K. S. Iyengar tem o crédito de ter trazido para o Ocidente uma tradição e prática de três mil anos. Ele é responsável por promover um sistema notável pelo uso de acessórios e de instruções passo-a-passo detalhadas para conquistar um āsana, que atualmente é a mais disseminada forma de praticar yoga no mundo;

Iyengar conquistou seguidores dos quatro cantos do mundo entre dançarinos, estrelas de cinema e do esporte, músicos, escritores, políticos, e até mesmo, em 1958, a Rainha Mãe da Bélgica, à época contando 85 anos, a quem ele ensinou a postura do equilíbrio sobre a cabeça (śīrṣāsana).

Iyengar, originariamente, voltou-se para o yoga a fim de encontrar uma solução para seus problemas de saúde, posto ter sido um menino doente, atacado por diversas doenças tropicais e, a partir daí, cultivou o desejo de possibilitar que as pessoas comuns se beneficiassem do sistema também. Ele está entre os pioneiros na promoção da aplicação terapêutica do yoga como método natural de prevenção e cura de doenças graves, ajudando a ampliar o acesso à disciplina da mente e do corpo.

Ele desenvolveu seu próprio estilo, aperfeiçoado por meio de sua própria prática, antes de ensiná-lo a seus alunos. Também introduziu a ideia do ensino de yoga a grupos e a mulheres, mesmo durante a gestação. Embora tenha dado ênfase ao alinhamento preciso do corpo, ele trabalhou na adaptação dos āsanas, de forma que pudessem ser praticado por pessoas com mobilidade limitada. Ele foi pioneiro na introdução de acessórios como cordas, cintos, blocos de madeira e bolsters com o fito de possibilitar aos idosos e aos que não estão em boa forma física a execução das posturas clássicas corretamente e com segurança.

A fim de manter a integridade de seu método, Iyengar estabeleceu um rigoroso processo de certificação de professores, que enfatiza a prevenção de lesões. Ele escreveu: “A arte de ensinar compreende saber a hora de parar.”

Iyengar, aos 95 anos, com seus cabelos brancos, olhar intenso e sorridente encimado por selvagens sobrancelhas, transmitia incomparável vitalidade, como se tivesse descoberto um método de yoga capaz de enganar a morte. Mesmo nesta idade ele afirmava que não havia um único āsana, de śīrṣāsana a hanumanāsana, que não pudesse executar. “Se você tem a mente certa, seu corpo pode fazer qualquer coisa”, ele dizia.

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