Prabhat Ranjan Sarkar disse que a prática espiritual mais elevada é aquela que inclui a devoção, a ação e o conhecimento. A prática mediana inclui devoção e ação e, a prática espiritual mais baixa é aquela que consiste apenas de falatório. A partir dessa sentença podemos mensurar a importância do aspecto devocional na prática do Yoga.  Quando falamos de devoção nos referimos especificamente ao sentimento de amor que constitui em si a base de toda prática e filosofia da tradição do Yoga. Não há ação e nem conhecimento conscientes sem o alicerce do amor. Sem amor não há luz, não há iluminação, não há Yoga.

Para os adeptos do Bhakti Yoga o amor é a única forma de apego permissível pois não reforça a personalidade egóica. A devoção e o amor a pessoa divina são as diretrizes da proposta do Bhakti Yoga. O praticante é sempre um devoto e a Realidade transcendente é concebida em geral como uma pessoa suprema e não como um Absoluto impessoal.

Os diversos rituais de devoção propostos nessa vertente do Yoga tem como fundamento a gradual intensificação da devoção que levará o praticante enfim a união com a divindade. Para a maioria dos seguidores do Bhakit-Yoga esse processo de união é somente parcial de modo que o adepto é sempre “menor” que a divindade. Sua felicidade consiste em compartilhar o amor da pessoa divina. O próprio termo bhakit deriva da raiz bhaj que quer dizer “compartilhar” ou “participar de” e refere-se ao participar do amor dessa pessoa divina.

Curiosamente o Bhâgavata-Purana define que não somente o amor é capaz de unirmo-nos à divindade, mas também emoções como o medo o desejo (sexual) e até mesmo o ódio. Segundo o mesmo texto o fator essencial para essa conexão com o divino é a concentração na figura divina não importando de fato que tipo de emoção se sinta. Essa perspectiva tão inusitada aparentemente assemelha-se em muito a uma conhecida história cristã. A história de Paulo de Tarso.

Anos após a morte de Jesus de Nazaré seus discípulos foram perseguidos pelos soldados de Roma que dominava todo o Oriente Médio na época. Um dos principais responsáveis pelas perseguições aos cristãos na região de Jerusalém era um homem chamado Saulo. De acordo com o relato na Bíblia durante uma viagem entre Jerusalém e Damasco numa missão, Saulo teve uma visão de Jesus envolto numa grande luz. Ficou cego, mas recuperou a visão após três dias e começou então a pregar o Cristianismo. Saulo foi batizado como cristão e passou a ser chamado Paulo. A conversão de Paulo mudou radicalmente o curso de sua vida. Com suas atividades missionárias e obras, Paulo acabou transformando as crenças religiosas e a filosofia de toda a região da Bacia do Mediterrâneo. De maneira impensável foi o ódio que Saulo nutria por Jesus  e seus seguidores o levou para o caminho do amor. É emocionante observar que os diferentes caminhos espirituais podem nos levar a uma diretriz comum: o amor. Por fim “a essência do amor é o fruto de todos os caminhos”. (Bhakti-Sutra de Nârada)

Namastê,

Mariana Cordeiro é especialista em História Contemporânea pela UFF. Trabalhou como professora no Instituto Politécnico da UFRJ. Descobriu uma nova forma de pensar e viver na tradição do Yoga e desde então tem se dedicado ao seu estudo e prática. Foi aluna do curso de formação da Ananda Marga organizado pelo Dada Siddheshvarananda. É aluna de Juliana Araújo (Juju Pryah) e estudante de Hatha Yoga na Humaniversidade Holística. Atua como instrutora de Yoga em São Paulo onde vive há dois anos.

Deixe uma resposta

Seu email não será publicado.

You may use these HTML tags and attributes:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>