Embora seja um conceito pouco praticado no ocidente, o discipulado consiste em um dos aspectos mais marcantes do Yoga. Tradicionalmente, o Yoga nunca é algo que a pessoa aprende sozinha. Há sempre um mestre e um discípulo.

O sistema iniciático de mestres e discípulos na Índia existe desde o período védico há cerca de 4500 anos a.C. O estudo dos Vedas era um dever sagrado de todos os membros da sociedade pertencentes às castas superiores. O conhecimento era transmitido aos jovens pela palavra falada e tinha que ser memorizado. Ao mestre era confiada a tarefa de guiar o discípulo em seus estudos acerca dos Vedas e zelar pelo seu bem – estar. O discípulo por sua vez, obedecia ao mestre e empenhava-se no estudo e nos serviços domésticos. O relacionamento entre mestre e discípulo é chamado guru-kula ou sistema da “casa do mestre”.

O mestre ou guru é responsável pela iniciação do seu discípulo e somente a partir do momento em que considera o discípulo pronto passa a transmitir-lhe os conhecimentos de sua linhagem. Quando um adepto é aceito por um mestre poderá passar por constantes testes e provações. O objetivo primordial desse tipo de metodologia é atingir e desestruturar a personalidade egóica presente no discípulo. É um caminho espiritual árduo dificilmente trilhado com desenvoltura. É sobretudo um caminho de disciplina, entrega e desapego.

Só de pensar na maneira como tem sido gerida a estrutura educacional no nosso país e na relação que vem sendo construída entre os jovens e o conhecimento, podemos compreender o quanto esse sistema de discipulado parece distante da nossa realidade. Se por um lado o rigor do sistema do guru-kula parece não contemplar demandas dos novos paradigmas pedagógicos contemporâneos, estes por outro, estão longe de ser eficientes em seus desígnios fundamentais. Mas afinal de contas qual é mesmo o principal objetivo das nossas instituições educacionais? Em resumo a nossa lei de diretrizes e bases da educação prevê que a instituição escolar deve orientar o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e da tolerância recíproca em que se assenta a vida social, bem como, o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico.

O que vemos na realidade é que as instituições educacionais são bastante empenhadas na a exposição de conteúdo programático e que o corpo docente de modo geral tem pouca aptidão ou capacitação para promover autonomia intelectual, pensamento crítico e é muitas vezes, carente de valores bem definidos. A base da relação dos jovens com o conhecimento tem forte ligação com o processo individual de inserção no mercado de trabalho e pouco vínculo e comprometimento com um processo de transformação social e humano. A possibilidade do acumulo de riqueza e ascensão social tem sido o maior incentivo e a base do estímulo da relação dos jovens com o conhecimento. No sistema que preconiza o conhecimento como meio de ascensão social por meio do ingresso em instituições de formação profissional o saber resume-se basicamente na transmissão escrita ou oral de informação. No final de sua formação os jovens têm poucas condições de aplicar um conhecimento transmitido por anos na vida prática.

Geralmente quando se diz a uma criança que é necessário que ela freqüente a escola para ser “alguém na vida” dificilmente refere-se aos valores morais e éticos necessários a formação intelectual humana. Na realidade, “ser alguém na vida” refere-se muito mais a ter condições materiais de sobrevivência e ou consumo.

Para a grande maioria das pessoas o materialismo sobrepõe-se a espiritualidade. Dedicamos pouco da nossa energia e nosso tempo as questões espirituais e temos pouco empenho em lapidar nossa personalidade egóica. Aprendemos a enxergar o caminho espiritual como algo abstrato distante de nós. Não estamos acostumados a refletir sobre nossa condição humana e na maior parte de nossa vida negamos a eminência da morte. Não preparamos nossas crianças e jovens para compreender a velhice, a morte, ou mesmo para pensar sobre a natureza do amor… ensinamos que ela tem que ser alguém na vida… mas quem? Nem nós mesmos sabemos…

Sob uma perspectiva espiritualista quando buscamos cada vez mais tornarmo-nos conscientes, agirmos de forma coerente com o princípio divino e universal. Se de alguma forma ainda não criamos o desapego e o comprometimento para submetermo-nos aos critérios de um mestre, temos como praticantes de Yoga um dever espiritual de vivenciar ao máximo os valores propostos nessa tradição milenar. Mais do que simplesmente praticar a disciplina dos asanas torna-se cada vez mais necessária a pratica dos Yamas e Nyamas (condutas morais). É preciso que vivenciemos o Yoga com a nossa família, colocando seus princípios básicos como premissas de toda a nossa vida. Temos que fazer dele a nossa diretriz básica, não apenas no discurso, mas, na ação diária de modo consciente.

Assim como o exemplo é o melhor conselho, a prática é o melhor professor.

Mãos à obra, ainda temos muito que fazer…

Namastê

Mariana Cordeiro

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