desnudosNa luz todas as coisas são manifestas, até as micro-partículas de poeira não podem ocultar-se. Sendo assim como poderá o homem camuflar-se? Ainda que ele viva em tão vasta floresta de leis, dogmas, doutrinas e supostas moralidades, estes “arbustos” embora diversos, não poderão esconder sua nudez ante a Luz que penetra por entre as árvores.

Em Cristo o ser é despido e toda nudez é manifesta. “O Pecado traz consigo a veste, a santidade traz consigo a nudez”. Veste é sinônimo de disfarce, apaisanamento, máscara. Por traz de toda vestimenta a uma lepra escondida. Toda humanidade procura esconder sua enfermidade por traz dos trajes da ética e da religiosidade. Mas Jesus não veio para colocar uma nova túnica sobre a carne que está sendo carcomida e nem trouxe consigo remendos de pano novo para por sobre vestes velhas, pois ele não é costureiro e muito menos alfaiate. Nele o único uniforme aceito são os das crianças quando vem ao mundo, paradoxalmente falando, só os nus estão vestidos em sua presença. Só os desnudos podem conhecê-lo! Adão viveu o auge de seu relacionamento com o Eterno neste estado, e para usufruirmos desta comunhão é necessário voltarmos ao princípio da nossa existência, quando apenas a imagem e semelhança do Divino nos distinguiam na criação. Sem vestes os títulos desaparecem e o humano emerge.

Despidos reis e mendigos, princesas e meretrizes, presidentes e garis, papas e leigos, generais e soldados, caciques e tribais se assemelham. Nudez é sinônimo de naturalidade, pureza, santidade, transparência e metaforicamente manifesta-se como a dimensão mais profunda do ser. Neste nível as síndromes provocadas pela vergonha e as indumentárias confeccionadas pelo medo não existem. Quando esta consciência nos alcança, as distancias e as limitações se findam, o humano se integra ao Divino, o Desconhecido se faz conhecido, o Éden deixa de ser uma utopia e passa a ser uma realidade. Um versículo que elucida este fato encontra-se no Evangelho gnóstico de Tomé o Dídimo, que diz: “Os discípulos perguntaram: quando serás revelado a nós e quando nós te veremos? Jesus disse: quando tirarem suas vestes sem sentir vergonha e, pegando suas roupas, colocarem-nas sob seus pés e pisarem sobre elas como as criancinhas- então, contemplarão o Filho daquele que Vive e não temerão”.

Os religiosos, os políticos não o reconheceram porque não tiraram as vestes. Contra partida publicanos, prostitutas, pescadores e pecadores de varias matizes o contemplaram, porque despidos correram ao seu encontro. Desvestidos voltamos à inocência, a simplicidade, a singeleza de coração. Na ingenuidade as atitudes não são programadas, elas se manifestam espontaneamente. Passamos a viver como crianças, sem performances, desprovidos de hipocrisias. Quando nos abrimos para esta realidade começamos a compreender as palavras de Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Conversão significa mudança, transcendência, e esta metamorfose se realiza na consciência. Só retorna a ser criança quem nasceu de novo. Interessante é que ninguém nasce vestido, mas nu! O sistema é que nos veste, pois ele é o único interessado em ver-nos ataviados. Porque quando estamos vestidos, uma imperceptível mudança na nossa personalidade acontece. A vestimenta transforma-nos naquilo que não somos. Ela tem o poder de maquiar a nossa realidade e falsificar a nossa identidade. Uma fantasia altera o estado de consciência de uma criança, pois fantasiada ela encarna o personagem, confundindo ficção com realidade. Um salto alto causa efeitos similares numa mulher, pois quando estão providas de sapatos desta estirpe se sentem “poderosas”. Essa esquizofrenia é causada, pelas alucinações geradas pelo poder da imagem, inerente as vestes, refletindo não apenas um stylo, mas um estado psicológico. Quando a verdade penetra o âmago do nosso ser, um “strip-tease” espontâneo acontece, despertando-nos da hipnose gerada pelos movimentos exteriores.

Essa pequena abordagem reflexiva terá sua continuidade!

*Espero que este opúsculo sirva de combustível para alimentar a chama mística que arde em nosso interior. Fiquemos na Paz Daquele, que para se revelar em plenitude se “despiu” de sua glória.

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