Quando Patañjali afirma que yogaḥ citta vṛtti nirodaḥ (sūtra I.2) , está a dizer que yoga é um estado da mente em que ela está completamente livre de todas as oscilações do pensamento, de todos os hábitos mentais e, portanto, de toda a tendência à reatividade:

  • vṛtti = modificações, transformações, variações ou funcionamento;
  • citta = mente;
  • nirodhaḥ = parar, restringir ou controlar e, neste contexto, absorver os pensamentos em si mesmo.

Patañjali inicia seu trabalho dizendo, portanto, que as funções, as agitações e os fluxos da mente precisam ser controlados, no sentido de que se deve obter controle da mente para “desligá-la” de seu aspecto mundano e direcioná-lo para fins espirituais. De regra, é a mente que nos controla, equivalendo ao servo controlando o mestre.

Sabe-se que os hábitos da mente são os centros de reação formados na mente, resultantes da repetição de pensamentos (vṛttis) que resultam em repetição de experiências de prazer ou de dor (sukha/dukha) que, por sua vez, resultam na formação de memórias (saṁskāras) que se tornam nossos hábitos mentais que, colocados em ação, exibem as características de impulsos reativos.

Acostumamo-nos tanto com esses hábitos de pensamento e de ação que começamos a considerá-los nossa natureza. Entretanto, essa é a nossa natureza adquirida, não a nossa verdadeira natureza, a nossa natureza essencial livre dos centros reativos (ātman, puruṣa, self).

Cabe aqui ressaltar que cessar o fluxo incessante de vṛttis não significa inibir o surgimento de pensamentos na mente, pois isto significaria tornar a mente totalmente adormecida ou morta. Não é o surgimento de pensamentos que constitui um problema, mas dar continuidade a esses pensamentos porque, a continuidade de pensamentos e as tendências da mente são uma única coisa: da continuidade do pensamento nasce a tendência reativa da mente.

“Quando o pensamento estabelece sua esfera de influência na mente, então nasce vṛtti. Se os pensamentos viessem e fossem sem formar qualquer centro permanente da mente, não haveria absolutamente dificuldade. Tal mente sempre permaneceria livre e não comprometida. Em tal mente os centros do hábito não seriam criados. (…)

A questão fundamental portanto é: como prevenir esta continuidade com referência ao pensamento-emoção?”[1]

Quando vamos para o tapete praticar yoga, nossa mente vai conosco, de modo que precisamos estabelecer um esforço contínuo (yatna) e estável (sthitau)[2] para praticar os oito aspectos do yoga[3] a fim de prevenir a continuidade das ondas pensamento-emoção (vṛtti).

Por força da prática com o foco no momento presente, a prática torna-se consciente, de forma que há real benefício mental na prática de yoga: adquirimos maior estabilidade mental e, de consequência, maior estabilidade emocional.

Quando trazemos a atenção para as sensações do corpo e nos concentramos em perceber o “aqui e agora” de modo reiterado, estamos controlando as flutuações da mente a fim de alcançar o estado de esvaziamento. Quando alcançamos o controle das alterações da mente, temos controle de tudo, porque as coisas externas não nos aprisionam, nem nos libertam, somente nossa atitude perante elas faz isso.

Iyengar[4] ensina que yoga é a neutralização das ondas que se alternam na consciência; é a cessação de todas as modificações da substância mental, é a arte de estudar o comportamento da consciência, que possui três funções: cognição, volição e ação. A prática de yoga mostra formas de conduzir alguém ao estado imperturbável do silêncio que conduz ao assento da consciência. Yoga é, então, a arte e a ciência da disciplina mental através da qual a mente se torna refinada e madura.

A prática do yoga integra uma pessoa através da jornada da inteligência e consciência desde o exterior (da camada do corpo por meio da prática dos āsanas) até o interior (da alma, do ser interior, do self por meio da concentração no momento presente), unifica a partir da inteligência da pele até a inteligência do eu, de modo que seu eu se funda com o Eu cósmico.

Na técnica desenvolvida por B. K. S. Iyengar, iniciamos a prática usando aquilo com que temos maior contato, o corpo, através da execução dos āsanas e dos prāṇāyāmās, tendo por foco de atenção o eu individual, a quem acessamos por meio do direcionamento da atenção para o momento presente, primeiro, à execução da figura do āsana, depois às ações nele envolvidas, mais adiante aos efeitos destas ações sobre a respiração e ainda mais adiante ao efeito da ação sobre cada célula do corpo durante a execução para, afinal, observarmos o estado da mente, desta forma alcançando uma mente ekāgratā que acaba fluindo para o estado de meditação (dhyāna), onde o eu individual perde sua identidade e se torna um com o Eu Universal.

Deste modo, podemos observar que a prática consciente dos āsanas e dos prāṇāyāmās e conduzem ao estado de pratyāhāra (atenção) que provocam a contenção da flutuação dos pensamentos que, por sua vez, conduz à concentração (dhāraṇā) que conduz ao silêncio que é a meditação (dhyāna), conduzindo, por fim,  ao estado sátvico (sabedoria).

El Haṭha Yoga Pradīpikā, dice que los sentidos son controlados por la mente, y que esta lo es por la respiración. El texto dice:

indriyāṇām hi mano nāthaḥ manonātḥasya mārutaḥ/

mārutasya layo nāthaḥ s layo nāḍamāśritaḥ// (IV.29)

El señor de los sentidos es la mente; el señor de la mente es la respiración; cuando los nervios suavizan el fluido de la respiración, entonces se controla los sentidos y se somete la mente.

La mente, el señor de los sentidos, ha de ser calmada mediante el fluido de energía, el prāṇa. Quien sabe cómo canalizar la respiración puede canalizar la consciencia, y a través de ello controlar los órganos de acción y los sentidos de percepción.[5]

Neste sentido o sūtra I.34 – pracchardana vidharanabhyam vā pranasya: outra possibilidade de difundir consciência é conseguir aquele estado de serenidade existente na retenção da respiração após a expiração. Aqui se recomenda inspirar e expirar lenta e pausadamente, mantendo a retenção (kumbhaka) tanto quanto seja confortável. Essa prática assegura um estado de consciência calmo, preparando-a para a evolução espiritual, leciona Iyengar, assim tornando claro que atingir a meta do yoga é possível para indivíduos, culturas e bagagens diferentes.

Quando a mente está concentrada e sem agitação, a respiração para, o que é chamado de kevala kumbhaka ou retenção sem esforço, o que as pessoas que ingressam em meditação profunda experimentam.

Se a respiração está controlada, a mente também está, uma vez que ambas estão intimamente conectadas, produzindo uma mente calma e focada, livre dos vṛttis e próxima do estado de samādhi.

Bryant, em comentário ao sutra I.39[6], nota que se deve apontar a memorável conquista de B. K. S. Iyengar na disseminação da prática dos āsanas mais que qualquer outra pessoa nos registros da história do yoga, sustentando que os āsanas, não somente são o terceiro dentre os oito membros do yoga, mas também são um objeto de meditação que pode trazer a experiência de samādhi.

Enquanto isso é uma inovação na história do yoga, deve se notar que Patañjali mesmo sustenta, no sūtra I.34, que a prática do āsana associada ao quarto membro do yogaprāṇāyāma – pode trazer a tranquilidade da mente, pré-requisito de samādhi, agora neste sūtra acrescentando que qualquer objeto pode ser eleito pelo praticante para meditação, de acordo com suas inclinações.

Ainda mais importante é lembrar que uma vez atingido o estado de tranquilidade da mente numa situação, mais fácil é transpor essa tranquilidade para outras situações. Uma vez a mente acalmada, sua natureza sátvica pode se manifestar e, como resultado disso, as qualidades de sattva, insight e lucidez gradualmente se manifestam e começam a permear todos os aspectos da vida do praticante, transformando sua compreensão e relacionamentos e, ao final, gerando a inclinação ao cultivo da sabedoria e iluminação.

O sādhaka não somente fica livre das perturbações da mente, mas também subjuga sua consciência e paixões.

[1] Rohit Mehta, Yoga – a arte da integração, Ed. Teosófica, Brasília – DF, Brasil, 1995.

[2] I.13 – tatra sthitau yatnaḥ abhyāsaḥ.

[3] II.29 – yama, nyama, āsana, prāṇāyama, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna e samādhi.

[4] B. K. S. Iyengar, Light on the Yoga Sūtras de Patañjali, Harper Collins Publishers, United Kingdom, 15ª Ed., 2008.

[5] B. K. S. Iyengar, La Esencia del Yoga, Aṭadaḷa Yogamālā, V. I., Biblioteca de la Salud, Ed.Kairós, 2ª edición, Barcelona, Spagna, 2008, p. 174.

[6] I.39 – yathabhimata dhyanat vā, “ou pela meditação sobre qualquer objeto que se deseje, que conduza à estabilidade da consciência”. Não qualquer objeto que seja externamente prazeroso, mas um que seja auspicioso e espiritualmente elevador. Praticando esse simples método de atenção focada, o sādhaka desenvolverá gradualmente a arte da contemplação. A execução perfeita de um āsana é prazerosa e através dela, também, se pode ganhar serenidade in Edwin Bryant, The Yoga Sutras of Patañjali, North Point Press, New York, 1ª ed., 2009.

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