Esse é um pequeno resumo da História do Yoga no nosso país. Como todo resumo procuramos destacar aquelas personalidades que estiveram diretamente ligadas ao desenvolvimento e difusão do Yoga no país. Muitas outras pessoas contribuíram e ainda contribuem individualmente e coletivamente para esse processo sem, no entanto terem a sua participação registrada ao longo desse processo. É o ônus dos pesquisadores de História.

A História do Yoga no Brasil começou na realidade no Uruguai com a chegada do francês Swami Asuri Kapila (1.901-1955) a Montevidéu. Swami Asuri pertencia ao Ramana Ashram-Escola Internacional de Yoga e filosoficamente foi influenciado pela proposta de Sri Aurobindo de uma Yoga Integral (ou Purna Yoga), que fosse não só um transformador interno, mas também social.

Swami Asuri Kapila promoveu diversas missões no Brasil para onde enviou seus discípulos. Em 1947, um de seus discípulos, o também francês Sevananda Swami (Leo Alvarez Costet de Mascheville), apresentou seus ensinamentos em um Congresso no Rio de Janeiro, diante de mais de 5.000 pessoas, entre eles o General Caio Miranda. Por volta de 1949 Caio Miranda começou a ministrar aulas gratuitas de Yoga em sua residência, utilizando folhas mimeografadas sobre o assunto, que eram distribuídas aos alunos. A semente do Yoga estava plantada no Brasil.

Em 1952 Sevananda Swami mudou-se pra o Brasil e criou um pequeno grupo de praticantes em Lages. No ano seguinte (1953) ganhou um terreno na cidade de Resende onde decidiu construir um mosteiro para sediar a Associação Mística Ocidental conhecida como AMO – Pax. Sevananda foi considerado o criador do Sarva-yoga e tinha uma concepção bastante mística do Yoga. Procurou manter aqui no Brasil a tradição do Yoga como um trabalho espiritual realizado dentro dos mosteiros. Para tanto contou com a ajuda de sua esposa Sadhana, Swami Vayvananda e Swami Sarvananda.

A criação do mosteiro em Resende foi um passo crucial para a difusão do Yoga no nosso país. Naquela cidade fica a Academia Militar das Agulhas Negras, um importante e estratégico centro militar até hoje. A proximidade entre o centro militar e o mosteiro acabou levando muitos militares a conhecer do e aderir à tradição do Yoga. Devemos lembrar que importantes ícones do Yoga Brasileiro saíram das fileiras militares como o Coronel José Hermógenes e o General Caio Miranda.

No final da década de 1950, o professor Jean Pierre Bastiou começou a ministrar aulas de yoga numa academia no Rio de Janeiro. Neste mesmo período Shotaro Shimada, abriu o Instituto de Cultura Yoga Shimada em São Paulo.  Antes, Shimada era praticante de judô e praticava Yoga visando desenvolver a autodeterminação e o aumento da concentração. Era adepto de Ramacharaka e teve grande influencia do Kaivalyadhama Yoga Institute. Para os seus alunos dava aulas de praticas respiratórias (pranayamas) como parte dos seus ensinamentos de Judô. Observe que naquela época o Yoga era visto pela maioria das pessoas como um sinônimo de faquirismo e era mal compreendido por muitos. Havia pouca literatura em português sobre o assunto e entre os poucos professores existentes na época havia alguns raros comprometidos com a tradição.

Em 1960 Caio Miranda lançou a primeira edição do livro Libertação pelo Yoga. O sucesso foi imenso e a edição de lançamento deste livro se esgotou na primeira semana. Na mesma época Caio Miranda inaugurou o Instituto de Yoga do Rio de Janeiro e obteve amplo apoio da sociedade teosófica.

Em junho de 1961, dissolveu-se o Monastério de Resende e o grupo de yogins se dividiu. Sevananda Svami e parte dos residentes partiram para Lajes (SC).  Swami Vayvananda também deixou Resende e por algum tempo ministrou aulas na recém-inaugurada Academia Hermógenes de Yoga (1962). A partir da dissolução do monastério de Resende teve início uma nova etapa do Yoga no Brasil. O caráter místico e espiritualista do Yoga de mosteiro praticado por Sevananda Svami foi dando lugar a uma prática de academia cada vez mais voltada para os benefícios corporais. O Prof. Hermógenes e o Prof. Shimada valorizavam os livros de Svami Kuvalayananda, representado no Brasil pelo professor Manohar Laxman Gharote. Svami Kuvalayananda é conhecido como o pioneiro do Yoga científico, fundador do Kaivalyadhama Yoga Institute, e Dr. Gharote especializou-se em pesquisas científicas, treinamento em Yoga e yogaterapia.

Durante a década de 1960 o José Hermógenes lançou alguns dos livros que tornam-se  clássicos da literatura Yogin no Brasil como Auto-perfeição com Hatha Yoga e Yoga para nervosos.  Como potiguar Hermógenes teve importância impar na expansão da tradição do Yoga pelo nordeste. O professor Hermógenes foi também um pioneiro da prática de Yogaterapia nos Hospitais e lutou pela aceitação do Yoga na classe médica. No Rio de Janeiro, Alberto Lohman foi o pioneiro a levar a prática de Yoga para os hospitais psiquiátricos. Seu trabalho foi desenvolvido a partir dos ensinamentos recebidos enquanto participante das atividades desenvolvidas pelo Amo-Pax. Alberto Lohman, que também era médico psiquiatra, em parceria com prof. Hermógenes, estendeu esse trabalho aos hospitais não psiquiátricos. Isto tornou o Professor Hermógenes como o pioneiro em medicina holística no Brasil.

O contato entre o Yoga e os militares durante a existência da AMO – Pax em Resende abriria muitas portas para o Yoga, principalmente após o Golpe Militar de 1964. O fato é que a presença de militares como o Prof. Caio Miranda e o Prof. Hermógenes na liderança do “movimento do Yoga” foram o cartão de visita que cativou uma elite tradicionalista e católica. A proposta de uma academia de Yoga em detrimento de um trabalho de monastério ou ashram proporcionaram o ambiente ideal para a aceitação do Yoga como uma prática corporal para o grande público e contribuiu para que o Yoga não fosse visto como uma seita ou algum dos diversos grupos de ocultismo que surgiram na época. Esse foi um ponto crucial para a difusão do Yoga principalmente durante o período da censura e repressão.

Entendemos, portanto, que quando em 1964, o professor De Rose funda, aos 20 anos de idade, o Instituto Brasileiro de Yoga um longo caminho já havia sido percorrido para a difusão e aceitação do Yoga no Brasil. A trajetória do Yoga no Brasil, no entanto, ainda seria traçada e a presença de elementos da nova geração como o Prof. De Rose seriam determinantes no rumo da tradição. As principais divergências se dariam em torno da institucionalização e regulamentação do Yoga e nas diretrizes do processo de formação dos novos instrutores.

Existia na época uma grande preocupação acerca do desenvolvimento do Yoga não Brasil. Com a morte de duas personagens importantes do cenário nacional(1969 Morreu Caio Miranda e em1970 Morreu Sevananda Svami) a ideia de uma associação de Yoga começou a figurar como a solução para a tradição no país. Uma associação que divulgasse uma linha tradicional do Yoga baseado no Yoga de Patañjali. Ela acabou sendo formada em 1973. A Associação Brasileira de Professores de Yoga (ABPY), teve como sócios fundadores: Jean Pierre Bastiou, sua esposa Zilá, Maria Augusta Figueira Cavalcanti, Orlando Cani e Nara Cani, Dagmar Krebs e Jacy Pontes Vaz, Vitor Binot, Sri Vayuananda, Eneida de Oliveira Santos, Nilda Fernandes Mesquita, Marly Rafael Mayer. Posteriormente, a ABPY associou-se à União Européia de Associações Nacionais de Yoga (UEANY), liderada por Gérard Blitz.

1972, a paulista Maria Helena de Bastos Freire funda, em nível Universitário, o 1º Curso de Formação de Professores de Yoga.

1975, Maria Helena de Bastos Freire criou a Associação Internacional de Professores de Yoga do Brasil (AIPYB), filiada à International Yoga Teachers Association, da Austrália.

1975, De Rose cria a União Nacional de Yôga (Uni-Yôga), que revive o Yoga Tântrico e recodifica o Yoga antigo.

Os grupos da Associação Brasileira de Professores de Yoga (ABPY) e da Associação Internacional de Professores de Yoga do Brasil (AIPYB), uniram-se e criaram a Federação de Yoga do Brasil (FYB) fomentando uma união entre os grupos do Rio de Janeiro e de São Paulo. A professora Maria Helena de Bastos Freire, então, presidiu a Federação e representava o Yoga no Brasil, juntamente com De Rose.

Trocando em miúdos:

  • Associação Brasileira de Professores de Yoga: ABPY (associou-se à União Européia de Associações Nacionais de Yoga).
  • Associação Internacional de Professores de Yoga do Brasil: AIPYB (filiada à International Yoga Teachers Association, da Austrália).
  • ABPY + AIPYB = Federação de Yoga do Brasil (FYB)

As políticas completamente divergentes da International Yoga Teachers Association (a quem a AIPYB era filiada) e da União Européia de Federações Nacionais de Yoga (a quem a ABPY era filiada), impossibilitaram um acordo final, além de criar uma rivalidade e os grupos se separaram. Assim, a Federação de Yoga do Brasil (FYB) passou a ser comandada apenas pelos membros da AIPYB de São Paulo, que passaram a nomear representantes e criando associações estaduais.

É importante lembrar que no final da década de 1970 o Brasil encaminhava-se para a abertura política e o fim do bipartidarismo. A sociedade brasileira estava ansiosa pela criação de sindicatos, associações e partidos. As lideranças do Yoga vivenciavam esse momento histórico e buscaram posicionar o Yoga frente a todos os acontecimentos da época.  A partir da criação dessas organizações reguladoras o Yoga no passou a ser motivo de algumas disputas entre as principais personalidades da área. Criaram-se nessa época associações, federações e confederações com o objetivo de regulamentar todas as questões ligadas ao Yoga no Brasil.

No ano 2000 a proposta de regulamentação da profissão de Educador Físico abalou o mundo do Yoga. Atividades com as artes marciais, danças e yoga tornaram-se exclusivas da profissão de Educador Físico. A polêmica só terminou com a assinatura de um contrato de cooperação entre a recém-criada Confederação Nacional de Yoga do Brasil CONYB e o Conselho Nacional de Educação Física CONFEF e da Confederação Brasileira de Yoga CBY com o CONFEF.

2000 Foi fundada, também neste ano, a Aliança do Yoga do uruguaio Pedro Kupfer.

2001 Swami Maitreyananda abandonou seu título de presidente de honra da Confederação Brasileira de Yoga (CBY). Segundo o mesmo era preciso entender que o “Yoga é Educação Espiritual não é Educação Física”. No mesmo ano o professor Hermógenes também abandonou a presidência de honra da Confederação Nacional de Yoga do Brasil (CONYB).

2002, a Federação Internacional de Professores e Profissionais de Yoga se transformou na Federação Internacional de Yoga “International Yoga Federation”, após fusão com o Conselho Mundial de Yoga (World Yoga Council).

2003 Marco Shultz iniciou o projeto Simplesmente Yoga com uma abordagem humana e integrativa com o proposito de compartilhar ensinamentos, vivencias e práticas.

2003-2004, a professora Neusa Veríssimo coordena o 1º Curso de Especialização em Yoga, a nível de Pós-graduação lato-sensu, em parceria com a Universidade de Fortaleza (UNIFOR), como uma forma de iniciar uma profissionalização do professor de Yoga.

2004 tem início o Curso Livre de Formação de Instrutores de Yoga sob orientação de Mônica Prado. O curso foi o primeiro no Brasil a formar instrutores de Yoga com especialização na Filosofia Vaishnava Vedanta e conceitos de Bhakti-yoga, tendo como base as escrituras modelares do Yoga: Srimada Bhagavatam, Bhagavad-gita, Vedanta-sutra e Yoga-sutra.

Ainda em 2004, surgiu no Brasil a publicação de “Cadernos de Yoga”, dirigida por Pedro Kupfer, contendo artigos de professores e estudiosos de diferentes linhas do Yoga.

Muitas outras ações foram realizadas em prol de um desenvolvimento mais democrático no Brasil como, por exemplo, a Semana Yoga pela Paz que acontece em todo o Brasil desde 2007. Por fim parece que o Yoga no Brasil está finalmente emergindo de suas disputas institucionais e sob a tutela de novas lideranças ocupando-se progressivamente de sua meta maior que é promoção da espiritualidade, da paz e compaixão. É preciso entender que acima de tudo somos representantes de um caminho espiritual e não político. Por isso, faz se necessário conhecer a tradição. Estuda-la e compreende-la. A política institucional tem sua legitimidade somente quando alicerçada pelos conceitos e diretrizes da tradição que pretende representar. Sem esse fundamento corre o risco de virar um partido político, um sindicato.

É de nossa intransferível responsabilidade como praticantes ou professores zelar pela tradição. O Yoga vive um momento ímpar em sua história graças a sua grande difusão nos meios de comunicação. Está presente em praticamente todas as academias de ginástica e vem marcando presença nos mais variados seguimentos sociais. Assim como algumas lideranças do movimento do Yoga no Brasil foram influenciados pelo momento histórico e politico brasileiro do século passado, tendendo a institucionalizar o Yoga, nós corremos também o risco de esquecermo-nos do objetivo principal da prática que é a união com Deus. Nosso tempo é marcado em grande medida pelo individualismo, consumismo e culto ao corpo. Somos bombardeados por uma indústria da comunicação que faz questão de deixar claro todos esses ideais contemporâneos. Não podemos comprar impulsivamente e sem reflexão a ideia de um yoga fitness ou um yoga da moda. Embora a linha tântrica a qual pertence o Hatha Yoga preconize o cuidado com o corpo e destaque a importância da vida material para o caminho espiritual devemos ter a consciência de que o corpo e a matéria são recursos que dispomos para a vida espiritual. Como bem disse Swami Maitreyananda “o Yoga é educação espiritual” antes de tudo.

Namastê,

Mariana Cordeiro

Bibliografia:

Autoperfeição com Hatha Yoga – José Hermógenes

A História do Yoga no Brasil Revelada- Cadernos de Yoga- Vitor Caruso Jr

Identidades e Paradoxos do Yoga no Brasil: Caminho Espiritual, Prática de Relaxamento ou Atividade Física? – Maria Lucia Abaurre Gnerre – Universidade Federal da Grande Dourados

O Yoga como Caminho de Elevação na Espiritualidade e na Saúde – Vânia Cristina Lucena Lima Dissertação de Mestrado- UFPB

 

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