Ler uma matéria da colunista Eliane Brum na Revista Época em setembro de 2009 intitulada “Por que as pessoas falam tanto” me fez parar para pensar no assunto e observar o comportamento humano, inclusive o meu, e sua dificuldade de encontrar silêncio. Uma frase desse texto me vem sempre a mente: “nunca escutamos tão pouco e talvez por isso nunca fomos tão solitários.” Eu adaptaria a frase ao tema que vou abordar hoje: “nunca NOS escutamos tão pouco… e talvez por isso nunca fomos tão solitários em nossa própria presença.”

É evidente que exista algo de errado na vida humana que tende a ser consertado. Existe a urgência de resgatar a vida pacífica, tranquila, reencontrar o ambiente da casa interior na qual possamos de fato nos sentir serenos, tranquilos… onde nosso ser encontre a sua paz original. Da mesma forma que descansamos nosso corpo físico dormindo, é necessário descansar nossa mente, e através da prática do silenciar que podemos encontrando o meio para isso.

Tudo o que é criado necessita de repouso. O motor do carro não pode ficar ligado por muito tempo no máximo de sua potência. Nenhuma máquina que produz sem parara agüenta muito tempo. Assim também é a natureza: ela precisa de um tempo de silêncio, de descanso, de repouso, para voltar a produzir melhor. Os passarinhos não cantam o tempo todo, têm momentos de silêncio, de descanso, para depois ao nascer do dia ou ao por-do-sol voltarem a cantar. Por que deveria ser diferente com o ser humano?

A doença do terceiro milênio é o estresse, a estafa. Nossos nervos não agüentam mais situações- limite. Nossos desejos de posse são constantemente incentivados por estímulos vindo do externo, das propagandas, do que as outras pessoas falam, do nosso instinto de competir… Mas se houvesse uma prática do silenciar diária onde pudéssemos de fato, avaliar nossa situação concreta nos distanciando do mundo exterior e seu barulho, procurando no silêncio o termômetro que nos orientaria sob determinadas situações, será que todas as necessidades exteriores continuariam tão latentes dentro de nós?

No livro “O Poder do Silêncio”, Eckhart Tolle nos questiona se o mundo será salvo se tiver mais informações, se os computadores se tornarem mais rápidos ou se forem feitas mais análises intelectuais e científicas. “O que a humanidade precisa hoje é de mais sabedoria pra viver. A sabedoria vem da capacidade de manter a calma e o silêncio interior. Não é preciso mais nada, além disso. Manter a calma, olhando e ouvindo, ativa a inteligência real que existe dentro de você. Deixe que a calma interior oriente suas palavras e ações”.

No silêncio todos sabemos o que se passa dentro de nós, mesmo que não o consigamos definir. O silêncio somos nós, é a nossa identidade. Um dos maiores benefícios do silenciar é perceber a realidade em sua forma original, e não distorcida pelas idéias que vão ficando “encrustadas” na mente quando não a esvaziamos. Imagine quantas decisões importantes tomamos com a mente cansada, estressada ou motivada pela aprovação dos outros?

É dentro de nós que se encontra a força para resolver os problemas e para curar-nos dessa agitação que vai aumentando, tirando nossa paz interior e tornando-nos insatisfeitos… independente de quanto tivermos, a tendência para curar a insatisfação será projetada em nosso mundo externo… mas se as coisas materiais são temporárias, dificilmente elas nos trarão paz ou felicidade permanente. E essa concepção vai ficando cada vez mais clara a medida que formos nos desligando das necessidades do mundo e buscando nossa verdadeira identidade.

Os médicos dizem que a maioria das doenças são psicossomáticas, materializações das angústias interiores que sofremos, das pressões externas que encontramos a todo momento. Nosso corpo reclama repouso, silêncio, calma… pede que lhe dediquemos tempo, carinho e atenção para que possa desempenhar suas funções harmoniosamente.

A voz da natureza não perturba. Ela é a nossa voz original e o fato de a termos perdido por conta da vida moderna não a substitui por outra. O encontro com ela nos dá o sentido profundo do descanso físico e mental.

“Sempre que houver silêncio à sua volta, ouça-o. Isso significa apenas percebê-lo. Ouvir o silêncio desperta a dimensão de calma que já existe dentro de você, porque é só através da calma que se pode perceber o silêncio. Nesses momentos você se liberta de milhares de anos de condicionamento humano coletivo.” Eckhart Tolle

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