A prática de yoga é um processo de auto-observação. Todos os movimentos nos levam a trazer o olhar para o nosso corpo-mente conhecendo o seu funcionamento. E, a partir daí, surgem grandes desafios. Temos que lidar com todas as limitações do corpo e da mente.

Durante o processo de aquietamento da mente, começamos a observar o seu movimento. Conscientes do nosso fluxo mental, observamos nossa mente oscilando entre a memória do passado e as expectativas e fantasias em relação ao futuro. Começamos a observar as ligações entre um pensamento e outro e os sentimentos e emoções que vêm à tona. E, nessa observação, é comum se deparar com pesos que carregamos ao longo da vida. Um desses pesos é a culpa.

Dentro de nossa cultura ocidental, carregamos a forte tendência de nos sentir culpados. Durante anos fomos acostumados a julgar aos outros e a si mesmos. Quando começamos o processo de contemplar nossa mente, nos deparamos com a sensação de culpa e arrependimento. Imaginamos que poderíamos, ou deveríamos, ter agido de forma diferente no passado, e esse pensamento pode se tornar fonte de um grande sofrimento. Por isso, o primeiro passo para fazer as pazes consigo, é se aceitar como é. Se cada um de nós é fruto daquilo que vivemos no passado, da educação que tivemos, da sociedade em que estamos inseridos, do que viveram nossos pais e nossos ancestrais, nossas ações estão totalmente de acordo com esse momento. E, no passado, também estavam de acordo com àquele momento. A vida é uma sequência de “momentos presente”, e em cada momento temos um corpo-mente fruto de tudo o que vivemos e aprendemos.

Para reverter o processo da culpa, o primeiro passo é se desvincular das ações. Se somos capazes de observar nosso corpo, não somos o corpo. Somos a consciência testemunha do corpo. Se somos capazes de observar nossa mente, também não somos a mente. E, se somos capazes de observar e analisar nossas ações, também não somos as ações. Somos a consciência testemunha que anima e dá vida ao nosso corpo-mente. Nosso corpo-mente é apenas o nosso meio de interação com o mundo, e como tal, possui limitações. Limitadas também serão nossas ações.

Após conseguir se desvincular das ações, o passo seguinte é entendê-las como naturais. As ações são fruto daquilo que vivemos e de como estamos preparados naquele determinado momento. Sendo assim, as ações estão totalmente dentro da ordem e estão adequadas à cada momento. Com o passar do tempo, mudamos nossa forma de pensar, aprendemos um pouco mais e temos a tendência de pensar que poderíamos ter feito diferente no passado. Mas, na verdade, as ações do passado estavam totalmente adequadas àquele momento, àquela situação, à mente que tínhamos, à pessoa que éramos. A aceitação do corpo-mente e de suas ações com todas as suas limitações e a consequente compreensão da nossa verdadeira realidade é a libertação que desejamos

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