I.13 – tatra sthitau yatnaḥ abhyāsaḥ

 

O mundo atual gira em uma velocidade na qual a maioria de nós deseja resultados rápidos e instantâneos, preferencialmente sem sofrimento ou trabalho árduo. Ademais, nossa civilização tem caminhado para a busca dos prazeres imediatos em lugar da felicidade duradoura.

Neste pondo é preciso dizer que o engajamento na disciplina do yoga não é para aqueles que são preguiçosos, sem entusiasmo, enfatuados, que buscam incessantemente o prazer pelo prazer. Yoga é para aqueles que buscam uma continuidade de mutações a fim de obter a transformação que culmina na estabilidade final, isto é, samādhi, a absorção última da energia individual na Energia Universal.

Mas este resultado somente é alcançável por meio de uma prática estável dos oito membros do yoga (aṣṭāṅga yoga): yama, nyama, āsana, prāṇāyama, pratyāhāra, dhāranā, dhyāna e samādhi (sūtra II.29). Āṅga em sânscrito significa membro, aṣṭa significa oito, daí o nome aṣṭanga yoga, deixando claro que yoga é a prática de todos os oito membros e não de apenas alguns deles, a prática do conjunto sendo o caminho para a estabilidade da mente. A prática dos sete primeiros membros dá causa ao oitavo, samādhi.

Yama canaliza os órgãos de ação e niyama disciplina os sentidos de percepção. Yama e niyama destinam-se a prover uma base moral adequada para treinamento do yogi, são práticas morais e éticas, códigos de conduta, o que não-fazer e o que fazer. O principal objetivo desse código de ética é eliminar por completo todas as perturbações mentais e emocionais que caracterizam a vida de um ser humano comum, causadas, entre outros, pela raiva, desonestidade, sensualidade e possessividade. Sem a prática de yama e niyama não é possível alcançar as alturas do espírito.

Āsana e prāṇāyāma deixam o corpo e a mente saudáveis física, fisiológica e psicológicamente. Āsana harmoniza o corpo, equilibrando seus cinco elementos: ar, água, fogo, terra e éter. Prāṇāyāma proporciona poder sobre as qualidades especiais dos elementos: som, tato, forma, sabor e odor.

Pratyāhāra é o controle das atividades mentais, a disciplina dos sentidos da percepção e órgãos da ação para que fiquem livres dos prazeres sensuais extravagantes, possibilitando que o praticante mantenha seu nível de energia e se mantenha passivo em seu próprio espaço.

Dhāranā guia a mente de forma que a atenção possa focar-se em um único ponto ou local. Pratyāhāra e dhārāna são o elo condutor do estudo de si-mesmo. Pratyāhāra é a zona de estabilização da inteligência e dhāranā é a viagem inversa dos órgãos de ação, dos sentidos de percepção, da mente e da inteligência em direção ao si-mesmo.

Como pode se ver, a origem da estabilidade está na mobilidade. Ninguém pode alcançar a estabilidade diretamente, a não ser lidando com a mobilidade. A mobilidade é dinâmica, a estabilidade sem a mobilidade levará à estagnação.

A palavra estabilidade, em sânscrito, é sthiratā ou sthairya. A palavra sthiratā expressa diferentes aspectos da estabilidade como constância, firmeza, estabelecimento. O antônimo de estabilidade é mobilidade. Mobilidade indica, em geral, movimento, ação e função. Neste contexto significa movimento, ou melhor, um movimento progressivo. Ambos, mobilidade e estabilidade, são essenciais para a progressão.

A mobilidade é energia cinética enquanto a estabilidade é energia estática. A mobilidade é o estímulo que inspira prosseguir, enquanto a estabilidade é a energia estática que mantém o equilíbrio ou a força interna para ter firmeza. Um praticante de yoga necessita de ambas as qualidades – mobilidade e estabilidade, a inspiração para prosseguir e a adesão para estabilizar-se.

Patañjali, em todos os pontos e níveis de sādhanā, nos dá bhāvanā, isto é, a sensação daquele estágio onde precisamos ter completa mobilidade e flexibilidade com esforços dinâmicos a fim de nos dirigirmos à estabilidade.

Logo no primeiro sūtra de Samādhi Pāda lemos: “atha yogānuśāsanam”. por meio do uso da palavra anuśāsanam, Patañjali está solicitando que tenhamos completa estabilidade, já que estamos lidando com uma disciplina. A palavra anu, quando usada como prefixo da palavra śāsanam, significa um por um, dando a ideia de repetir algo metodicamente. Em outras palavras, indica o fluxo da disciplina. E toda disciplina tem uma fundamentação estável. Quando Patañjali diz anuśāsanam, ele está nos informando da necessidade de termos disciplina para seguir a disciplina do yoga, com o que denota estabilidade.

A esta disciplina segue-se a estabilização da mente. Patañjali indica isso com a frase do segundo sūtra, yoga citta vṛtti nirodaḥ (I.2). Isto significa que citta (consciência), está completamente preenchida e saturada por vṛttis (perturbações) e que esses vṛittis causam a instabilidade da consciência. É por causa desses vṛittis que trazem instabilidade que o yoga entra em cena para nos dar os instrumentos para refrea-los.

Esta consciência factual das oscilações da mente indicada por Patañjali é, em si mesma, a jornada da mobilidade para a estabilidade.” Todo o processo do yoga é o movimento para tornar citta nirvṛttika, isto é, livre de flutuações, modificações, perturbações.

Importa lembrar que a alma, o si-mesmo, ātman, puruṣa ou self, é estável porque é imutável, mas que prakṛti (a natureza) é mutável e transformável. A mobilidade tem este significado e é isto que torna o yoga possível: a mobilidade para empreender mutações. Porém, devemos saber como trazer a mudança para essa transformação, de forma que ela sirva ao nosso propósito. Se pensarmos neste sentido, vamos saber que para alcançar a estabilidade se requer muita mobilidade.

E para alcançar a estabilidade, Patañjali nos deu o metódo:

I.12 – abhyāsa vairāgyābhyāṁ tannirodhaḥ

Abhyāsa significa prática, portanto, mobilidade e vairāgya significa desprendimento, ausência de desejo, portanto, estabilidade.

Finalmente, no sūtra I.13 Patañjali define que tipo de mobilidade é necessária: I.13 – tatra sthitau yatnaḥ abhyāsaḥ, isto é, o esforço contínuo (yatha) e estável (sthitau) na prática dos oito aspectos do yoga (II.29 – yama, nyama, āsana, prāṇāyama, pratyāhāra, dhāranā, dhyāna e samādhi). Este sūtra claramente indica a presença dos conceitos de estabilidade e mobilidade na senda do yoga.

E o sūtra I.14 esclarece de que tipo de esforço se está falando: sa tu dīrghakāla nairantarya satkārāsevitaḥ dṛḍhabhūmiḥ, isto é, o processo contínuo e estável. Donde a prática (abhyāsa) precisa ser feita por um longo tempo, sem interrupções, com humildade e dedicação. Como praticantes de yoga temos que nos lembrar destas linhas em todos os momentos de nossas práticas, inclusive na prática dos āsanas: o āsana deve ser estável.

Estabilidade em um āsana não significa simplesmente congelarmos as ações físicas. Patañjali alude à estabilidade em um āsana no sūtra II.46, dizendo: sthira sukham āsanam, isto é, āsana é a perfeita firmeza do corpo, estabilidade da inteligência e benevolência do espírito. Assim, independentemente de qual āsana estamos praticando, ele deve ser feito com firmeza, estabilidade e empenho físico; boa vontade da inteligência mental; consciência e satisfação da inteligência do coração. Isto é como um āsana deveria ser entendido, praticado e experimentado. A prática de um āsana deveria nos nutrir e iluminar.

E mais: a perfeição em um ásana é obtida quando o esforço para praticá-lo deixa de existir, isto é, quando a perseverança no esforço não é mais necessária, e o ser infinito é alcançado. A perseguição esforçada da perfeição não é mais necessária quando chegamos ao platô da estabilidade, a dizer, a mobilidade cessa porque alcançada a estabilidade na postura. Quando isso ocorre é porque o praticante atingiu um estado de equilíbrio, atenção, extensão, difusão e relaxamento simultâneos no corpo e na inteligência e estes se fundiram à alma.

A abordagem de vairāgya também se dá passo a passo com a estabilidade. Patañjali aponta cinco estágios de vairāgya, dizendo que, primeiro, trazemos o controle sobre os seus órgãos de ação e sentidos da percepção desengajando-os de ações sedutoras e atrativas, de modo que os sentidos da percepção se tornem sem desejos; então, tornamos a mente sem desejos, acalmando-a, retirando-a dos objetos ou pensamentos que nos seduzem. Finalmente, nossa consciência tem de livrar-se inteiramente do desejo, de forma que atinjamos o supremo desprendimento. Esses cinco estágios não se dão no curso de cinco dias, talvez possa levar vidas. Essa aproximação passo a passo é mobilidade, que deve ser feita com um entendimento estável. Isso significa que precisamos ter a inteligência estável dentro de nós, o que nos recorda todo o tempo que somos yoga sādhakas (estudantes de yoga) e que nossa meta é alcançar o desprendimento com por meio da prática.

Namaskār!

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