No Muṇḍakopaniṣad (muṇḍaka 3, capítulos 1 e 2), através da alegoria de dois pássaros, busca-se explicar as duas facetas de citta ou consciência: a consciência absoluta (kūṭastha citta, kūṭastha = imóvel, perpétuo e universalmente permanecendo o mesmo) e a consciência alternada (pariṇāma citta, pariṇāma = mutável, alterado, transformado). Kūṭastha citta representa aquele que vê, em última análise, a consciência (citta) e pariṇāma citta representa o eu individual ou ego (ahaṁkāra).

E a estória é mais ou menos assim: como dois inseparáveis companheiros, dois pássaros de plumagem dourada estão empoleirados numa árvore. O primeiro pula incessantemente de galho em galho bicando as frutas doces e amargas da árvore, sem encontrar o sabor que deseja, tornando-se agitado. O segundo apenas o observa atentamente, permanecendo impassivo, imóvel, silente e repleto da felicidade suprema.

Mas quando o primeiro percebe o segundo, gradualmente vai se aproximando dele, o que na alegoria é descrito como o pássaro agitado ir se aproximando do pássaro impassível, finalmente deixando de buscar as frutas, perdendo o interesse por seus desejos e deste modo tornando-se calmo, silente e desprendido, repleto da mesma felicidade suprema, então se tornando livre da aflição.

Nesta estória a árvore representa o corpo, os dois pássaros o eu interior (self) e a consciência (citta), os diferentes sabores das frutas representam os sentidos, que criam aglomerados de ondas de pensamentos na consciência.

A analogia entre citta e ahaṁkāra,é interessante porque descreve citta como um observador passivo e o ego como aquele que está provando os frutos doces e amargos da vida, portanto, experimentando prazeres e desprazeres, até observar a imutabilidade e serenidade de citta e por termo às oscilações da mente – yogaḥ citta vṛitti nirodaḥ (YS I.2).

citta   a mente em sua totalidade ou no seu sentido coletivo, composta de três categorias: (a) mente, que detém as faculdades de atenção, seleção e rejeição; (b) razão, o estado decisivo que determina a distinção entre coisas e (c) Ego, o Eu-fazedor.

I.2 – YOGAḤ CITTA VṚITTI NIRODAḤ

Este é o sūtra que define o yoga. Verifica-se que a palavra vṛtti significa “modificações, transformações, variações ou funcionamento” e citta, mente. Nirodhaḥ significa “parar, restringir ou controlar”.

Chitta é um termo abrangente para designar o princípio do pensamento, que inclui as forças vitais do prāṇa, manas (mente ou consciência dos sentidos), ahaṁkāra (princípio do ego) e buddhi (inteligência intuitiva).

Chittam é a soma total da mente, sendo a mente básica ahaṁkāra ou ego, o sentimento do Eu. O intelecto ou faculdade de discernimento é buddhi. A mente que deseja, que sente atração pelas coisas exteriores através dos sentidos é manas (o yoga traz essa consciência que está na profundidade para a superfície, traz a profundidade para a consciência até que a inconsciência).

Buddhi possui o conhecimento decisivo que é determinado pela ação perfeita e experiência. Manas junta e coleta informação através dos cinco sentidos de percepção – jñānendriyas – e os cinco órgãos da ação – karmendriyas. A inteligência cósmica, ego, inteligência individual, mente, os cinco sentidos da percepção e os cinco órgãos da ação são produtos dos cinco elementos da natureza – terra, água, fogo, ar e éter – e de suas qualidades infra-atômicas do olfato, paladar, forma ou visão, tato e audição, o que os sábios analisaram como compondo as cinco camadas do homem:

Se ahaṁkāra (ego) é considerando uma ponta da linha, então antarātma (Eu Universal) é a outra ponta. Antaḥkaraṇa (consciência) é o que unifica as duas pontas.

A prática do yoga integra uma pessoa através da jornada da inteligência e consciência desde o exterior até o interior, unifica a partir da inteligência da pele até a inteligência do eu, de modo que seu eu se funda com o Eu cósmico.

Yoga, a contenção da flutuação do pensamento, conduz à quietude, que é a concentração (dhāraṇā), que leva ao silêncio que é meditação (dhyāna), que por sua vez conduz ao estado sāttvic (sabedoria). A concentração necessita de um foco, que é o eu individual. Quando a concentração flui para a meditação, este eu individual perde sua identidade e se torna um com o grande Eu (é preciso afiar o foco; a atenção é o instrumento de trabalho do yoga, ser yogi é ser um homem de atenção).

O estudante é influenciado pelo seu eu de um lado e pelos objetos da percepção do outro. Quando ele se deixa absorver pelos objetos, sua mente flutua. Isto é vṛtti. Seu objetivo é distinguir o eu dos objetos, de modo que ele não se deixe envolver por estes (o que cessa a nossa resposta é a nossa não identificação com o que nos é externo: os fatos continuam ocorrendo à nossa volta, mas cessa a resposta – não há bloqueio das percepções).

Através do yoga, ele deveria tentar libertar sua consciência das tentações destes objetos e trazê-la para mais perto de si. Conter as flutuações da mente é o processo que leva ao objetivo final: samādhi. Inicialmente, o yoga atua como o meio de contenção. Quando o estudante alcança o total estado de contenção, a disciplina do yoga foi cumprida e o final atingido: a consciência permanece pura. Deste modo, yoga é tanto o meio como o fim.

Namaskār!

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