Ainda na obra Árvore do Ioga[1], parte II, B. K. S. Iyengar ensina:

“Todos os oito membros do ioga têm seu lugar na prática do āsana. O primeiro é yama, comparado às raízes da árvore porque é a fundação a partir da qual cresce todo o resto.”

Yama contém os princípios de ahiṁsā (não violência), satya (verdade), asteya (isenção da avareza), brahmacharya (controle do prazer sensual) e aparigraha (não ambição).

A prática da não violência em um āsana significa a integração dos lados direito e esquerdo do corpo, o equilíbrio. Quando direito e esquerdo estão em harmonia, existe a verdade, que é o segundo princípio de yama. Você está na verdade porque não está escapando à realização do āsana no lado mais fraco.

Brahmacharya significa que a alma se move com seu ato. Quando existe união da alma com o movimento, isso é brahmacharya, contenção.

E na medida em que damos total atenção à realização equilibrada dos lados direito e esquerdo do corpo no āsana, não há apego ou avareza, pois quando a alma se move com inteligência no corpo, não há o que possuir, não há o que se buscar. Dá-se a libertação da cobiça porque a motivação para tal desaparece. E quando a motivação se vai, o mesmo acontece com as posses e, assim, o desejo de adquirir chega ao fim.

Quando os princípios de yama estão presentes na execução de um āsana, a isso se chama disciplina ética na execução de um āsana.

São também cinco os princípios de nyama. O primeiro deles é śauca, que significa higiene. Num āsana a limpeza se dá pela execução harmônica dele, os dois lados em sintonia são limpos adequadamente e irrigados pelo sangue, que transporta a energia biológica conhecida como prāṇā.

Quando estamos executando os āsanas, levamos o sangue a cada uma de nossas células, liberando a energia oculta de nosso corpo e trazendo luz, que vivenciamos na forma de santoṣa, o contentamento, que é o segundo princípio de niyama.

Mas além dele há um nível mais elevado de contentamento e um de execução de āsanas, expresso nos outros três níveis de niyama: tapas, svādhyāya e Īśvara-praṇidhana.

Tapas é o desejo ardente de purificar cada célula de nosso corpo e de nossos sentidos. E é nesse espírito que um āsana deve ser executado, por isso Patañjali denomina a prática de yoga de karma-yoga, yoga da ação, porque o desejo ardente de manter todas as nossas partes limpas exige-nos uma ação nesse sentido.

Svādhyāya quer dizer estudo do eu, no sentido de conhecer cada um dos três níveis e de cada uma das cinco camadas do ser humano. Isso é conhecido como jñāna-yoga, yoga do discernimento espiritual.

Īśvara-praṇidhana é bhakti-yoga, yoga da devoção. Quando, por meio da prática, se alcança um estado mais elevado de inteligência e essa identidade madura faz com que se perca a identidade do ser, tornamo-nos unos com o Espírito Universal ou com as Leis do Universo e isto é Isvara-praḍidhana: a entrega de nossos atos e de nossas vontades ao universo, que é o último dos cinco princípios de niyama.

Em suma, o efeito dos āsanas é manter a pele, as células, os nervos, as artérias e veias, os sistemas respiratório e circulatório, digestivo e excretor, a mente, a inteligência e a consciência, todos limpos e nítidos. Isso engloba todos os princípios de yama e niyama, que são as raízes e o tronco da árvore do yoga.

A atitude correta na realização de um āsana é de estar totalmente absorvido, com devoção, dedicação e atenção voltados para a postura. Deve haver honestidade na abordagem e na apresentação. Além de ser honesto consigo mesmo, é preciso ter muita fé, coragem, determinação, consciência e absorção para fazer bem uma postura. O āsana deve revestir a totalidade do ser do praticante com esplendor e beleza. Essa é a prática espiritual em sua forma física.

Āsana quer dizer postura, que é a arte de posicionar o corpo todo com uma certa atitude física, mental e espiritual. As posturas têm dois aspectos: a permanência e o repouso. A permanência implica ação (…). Repousar significa refletir sobre a postura. A postura é repensada e reajustada , para que os vários membros e segmentos corporais sejam posicionados em seus devidos lugares na ordem certa, e a sensação seja de descanso e apaziguamento, enquanto a mente experimenta a tranquilidade e a calma dos ossos, das articulações, dos músculos, das fibras, das células.(…)

Quando essa sensibilidade está igualmente em contato com o corpo, a mente e a alma, entramos em estado de contemplação ou meditação, conhecido como āsana. As dualidades entre corpo e mente, mente e alma, são vencidas ou destruídas.

A estrutura do āsana não pode mudar, pois cada āsana é uma arte em si. O praticante deve estudar cada āsana aritmética e geometricamente, para que sua verdadeira forma seja evidenciada e expressa na sua apresentação. A distribuição do peso do corpo deve ser equilibrada pelos músculos, ossos, mente e inteligência. Resistência e movimento devem estar em harmonia.”

Patañjali diz que, quando um āsana é realizado corretamente, as dualidades entre corpo e mente, mente e alma, desaparecem. Isso é conhecido como repouso na permanência, reflexão durante a ação. Quando os āsanas são executados dessa maneira, as células do corpo, que têm sua própria memória e inteligência, mantêm-se sadias, em consequência mantendo o corpo fisiológico (praṇamaya-kośa) sadio, possibilitando que a mente se aproxime da alma. Esse é o efeito dos āsanas.

 “Como as folhas que arejam a árvore e fornecem nutrição para que seu crescimento seja saudável, também o prāṇāyāma alimenta e areja as células, os nervos, os órgãos, a inteligência e a consciência do sistema humano. Quando estamos realizando um āsana, só podemos estender plenamente o corpo se sincronizarmos a respiração com o movimento. Prāṇa é energia. Ayama é criação, distribuição e manutenção. Prāṇāyāma é a ciência da respiração, que leva à criação, distribuição e manutenção da energia vital.”

Ao inspirar e expirar o cérebro acompanha esse movimento. Quando retemos o ar, o cérebro se paralisa. O interesse do yogi é manter a cabeça e o coração limpos por meio da harmonia da respiração, e isso é alcançado com a prática dos prāṇāyāmas.

Em termos filosóficos, a inspiração é o movimento executado pelo eu para entrar em contato com a periferia. Esse é o processo evolutivo de exteriorização da alma. A expiração é o processo de retorno, de involução, através do qual o corpo, as células e a inteligência se movem para dentro, para alcançar o cerne do ser. Esse processo de evolução e involução que ocorrem em cada indivíduo é prāṇāyāma.

Kumbhaka é a retenção da respiração, da inteligência e do eu.”

Quando a retenção da respiração se dá na inspiração, a essência do ser é mantida pelo praticante enquanto lhe é possível reter o ar, sendo essa a meditação sobre a alma (ātma-dhyana).

“O prāṇāyāma é a ponte entre o físico e o espiritual. O prāṇāyāma é o ponto central do ioga.”

Quando estamos intensa e totalmente absorvidos na execução do āsana, isso é pratyāhāra. “Geralmente, pratyāhāra é traduzido como introversão dos sentidos. Isso significa direcionar os sentidos da periferia da pele para o cerne do ser, a alma. No momento em que a mente se torna silenciosa, o si mesmo repousa em sua morada e a mente se dissolve. De maneira semelhante, quando os músculos e as articulações se mantêm em repouso em suas posições, o corpo, os sentidos e a mente perdem a sua identidade e a consciência brilha em toda a sua pureza. Esse é o significado de pratyāhāra.”

O pensamento hindu distingue a mente, aquela que reúne informações, da inteligência, aquela que tem o poder de discriminar o certo do errado e de raciocinar claramente.

“A parte intelectual da mente capta, coleta e acumula informações, mas não tem o poder da discriminação. Discriminação é conhecida como pratyāhāra. (…) Em boa parte de nossa vida, a memória se sobrepõe à inteligência. Ela aciona a mente e, porque a mente é acionada pela memória, buscamos apenas experiências passadas. A memória teme perder sua identidade, e por isso, antes que a mente tenha a chance de convocar a inteligência, a memória entra em cena e diz ‘Aja! Agora! Imediatamente!’. Isso é chamado de impulso, e normalmente é ele quem governa nossos atos. (…) A impulsividade implica agir prontamente, sem parar para refletir. Por isso pratyāhāra, o quinto estágio do ioga, nos foi dado.”

Os cinco órgãos da percepção entram em contato com os cinco sentidos e enviam suas impressões à mente, que as armazena na memória. A memória anseia por mais experiências e aciona a mente que, ignorando a inteligência, dedica-se à busca dessas experiências sensoriais. “Os desejos atiçam a mente para que haja mais prazer. Por meio de prazeres repetidos, os órgãos da ação perdem sua potência e não são mais capazes de estimular os órgãos da percepção ou a mente. A pessoa continua suplicando por vivências passadas, mas não consegue obter satisfação. Assim é plantada a semente da infelicidade.”

O ato de ir contra a corrente da memória e da mente é pratyāhāra, o processo de avaliar os próprios instintos, pensamentos e atos é a prática da renúncia (vairāgya). A memória experimenta novas impressões e é domada pela consciência, que por sua vez toma a inteligência (buddhi), dominando a natureza impulsiva e libertando o discernimento intuitivo.

Pratyāhāra significa não permitir que a memória domine, de modo que possa existir uma ligação direta entre a mente e a inteligência. Atingir esse grau de domínio é ter o yoga a seu dispor, é ter um novo conhecimento e entendimento da vida.

(…) quando a consciência está isenta das muletas das ondas de pensamento, torna-se altamente sensível, imaculada, pura e absoluta, como o vidente. Daí em diante, a consciência se dá conta de que quem percebe, o instrumento da percepção, e o objeto da percepção são o mesmo, e a mente pode refletir sem refrações ou distorções. Patañjali diz que, nesse estágio, a memória, por ter alcançado sua maturidade, perde sua existência, e a mente, livre das memórias do passado, torna-se ainda mais viva, vigilante e sábia (Yoga Sūtras, I.43).”

“Conduzir a mente em suas divagações a um estado de contenção é chamado dhāraṇa. Dhāraṇa é concentração, ou atenção, completa.” Quando se está fazendo um āsana, a consciência deve alcançar as fronteiras do corpo em todas as suas partes, sem que haja espaço para outros pensamentos. Isso ocorre quando realizamos o āsana integralmente, com as células, os nervos, a inteligência, a consciência, o ser completo, em unidade.

“Manter-se deliberadamente isento de pensamentos é concentração e também meditação. (…) permanecer positiva e deliberadamente isento de pensamentos é samādhi.

O estado deliberado requer uma atenção deliberada. Permanecer com a mente vazia também requer uma atenção especial. Portanto, não existe realmente um estado que, a rigor, possa ser chamado de mente vazia (…). Você não se torna vazio. Permanece pleno e totalmente consciente. Isso é dhāraṇa que, com o tempo, leva a dhyana e ao samādhi. É assim que os āsanas devem ser feitos.”

“Na realização dos āsanas, dois caminhos ou vias estão envolvidos. Um é o evolutivo, expressivo ou exibitivo, e leva o si mesmo até o corpo, até os poros da pele, até a periferia. O outro é o involutivo, intuitivo ou inibitivo, no qual os veículos do corpo são encaminhados rumo à essência do ser. A união desses dois caminhos é o casamento divino do corpo com a alma e da alma com o corpo. É a meditação.”

A medicina fala da existência de nervos aferentes, que enviam mensagens dos órgãos de percepção até o cérebro e de nervos eferentes, que enviam mensagens do cérebro para os órgãos da ação. Os nervos aferentes são conhecidos como fibras da pele ou nervos do conhecimento (jñāna-nāḍī) e os nervos eferentes como fibras da carne ou nervos da ação (karma-nāḍī). O entendimento perfeito entre esses dois sistemas nervosos é yoga.

“Na prática do ioga, deve existir um espaço entre a ponta da fibra da carne e a ponta da fibra da pele – espaço entre receber a mensagem enviada pelos órgãos da percepção e a mensagem que volta para os órgãos da ação. Se você faz isso, é meditação. (…)

Você reflete sobre a ação produzida pela carne, que é percebida pela pele. Você julga o que é certo e errado. Quando julga e consolida o equilíbrio em todas as partes, isso é dhyana – é contemplação.”

“A meditação pura é aquela em que todos os veículos da pessoa – seus órgãos da percepção, da ação, a mente, o cérebro, a inteligência, a consciência – são encaminhados para o cerne do ser, sem qualquer divisão nesse estado. A meditação é o equilíbrio dinâmico entre a inteligência intelectual e a inteligência intuitiva.”

E “quando é mantida a estabilidade na experiência, e quando a sensação da experiência não oscila, há samādhi.

Sama’ significa equilibrado, em harmonia. Quando a alma, que é a causa da existência, se harmoniza e se difunde em todas as direções, há samādhi.”

Se praticarmos yoga com o propósito de cultivar o corpo e a mente, essa é uma prática espiritual. “Dessa forma, não existe diferença entre ação e meditação, assim como não há diferença entre haṭha-yoga e rāja-yoga. ‘Haṭha’ significa a força de vontade da inteligência; ‘rāja’ é a alma. Inteligência, como a ponte entre a alma e o corpo, é o fio usado para tecer corpo e alma numa união divina, num casamento divino, conhecido como samādhi, ou a vivência do uno e do absoluto. Esse é o fruto da árvore do ioga.”

Yama cultiva os órgãos da ação para que possam agir com fins corretos. Nyama civiliza os sentidos e os órgãos da percepção. Os āsanas irrigam todas as células do corpo humano, uma a uma, nutrindo-o com um abundante suprimento de sangue. Os prāṇāyāmas canalizam a energia. Pratyāhāra controla a mente e limpa-a de todas as suas impurezas. Dhāraṇa retira o véu que reveste a inteligência, tornando-a aguda e cada vez mais sensível, para que possa agir como ponte entre a mente e os recessos da consciência. Dhyana integra a inteligência. No samādhi, os rios da inteligência e da consciência fluem juntos e se fundem no oceano da alma, e então a alma brilha em toda a sua glória.”

Isto é yoga.


[1] Ed. Globo, 4ª reeimpressão, São Paulo/SP.

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