Marcia Neves Pinto

Prosseguindo, asteya significa não roubar, não se apropriar, mesmo que indiretamente, daquilo que pertence a outrem, cessar até mesmo os pensamentos de desejo de apropriação tanto de bens materiais quanto de bens materiais como, por exemplo, receber crédito pelo o que não fez ou gozar de privilégios que de direito não lhe pertençam; copiar, imitar, usar outras pessoas ou coisas indevidamente. Vācaspati Miśra[1] sustenta que este último aspecto é de suma importância porque todas as nossas ações começam na mente. Śaṅkara[2] dia que os pensamentos de apropriação só podem deixar de existir quando se está livre do desejo.

Brahmacarya é a prática da austeridade, da não indulgência de todos os tipos. Exprime abster-se de qualquer demonstração grosseira ou sutil, de ostentar possessões, seja riqueza, beleza, conquistas espirituais ou de relacionamentos. Significa controlar o anseio por, não somente dos prazeres sexuais, mas de todos os prazeres sensuais. Todos os sentidos precisam ser vigiados e controlados: gula, fala, etc. Estabilizar-se na contenção do recebimento daquilo que não nos é necessário dá-nos o conhecimento das vidas passadas e futuras (II.39) porque, a ausência de apegos do corpo faz com que o yogi sinta o seu próprio corpo como recebido por empréstimo em virtude das ações praticadas em vidas anteriores (“eu não sou o corpo”).

Aparigraha significa não cobiçar, não ser ganancioso, não ter avidez pela riqueza, a não possessividade. Não é tanto a posse de coisas, mas o sentimento de posse, o que envolve a renúncia a posses quando elas conduzam à prisão.

Vyāsa[3] define a renúncia ao sentimento de posse como a habilidade de enxergar os problemas causados pela aquisição, preservação e destruição das posses, que somente causam apego e dano. Por essas razões a possessividade dá origem aos saṁskāras e ativa a cobiça pelos objetos e, mais tarde, a dor causada pela perda deles. Deste modo, o yogī procura ater-se à posse daquilo que é necessário para sua manutenção.

Cabe aqui ressaltar, entretanto, que não é a quantidade de bens que possuímos que importa, mas sim nossa atitude em relação a eles. Podemos possuir poucas coisas e termos um forte instinto de posse em relação a elas ou possuir muitas coisas e, ainda assim, estar livres de qualquer sentimento de posse. É possível viver em circunstâncias as mais luxuosas, sem qualquer sentimento de posse e disposto a repartir tudo sem a mais leve hesitação.

Embora possível, isso não é fácil e, de qualquer modo, o dispêndio de tempo e energia usado para acumular coisas que de fato não necessitamos, mantê-las e guardá-las com as preocupações e ansiedades da vida aumentando proporcionalmente à acumulação. Consideremos, ainda, o constante medo de perder esses bens, a dor e a angústia de deixá-las para trás. Afora as complicações que a acumulação causa no mundo no campo sócio-econômico.

Deste modo, o futuro yogi limita suas posses e necessidades ao mínimo e elimina de sua vida todos os acúmulos desnecessários e atividades que dissipam suas energias e constituem fonte de perturbação constante da mente.

II.31 – jāti deśa kāla samaya anacacchinnāḥ sārvabhaumāḥ mahāvratam

Neste sūtra Patañjali observa que a disciplina do yoga é um grande voto e que este voto nos afirma que não devemos cogitar de qualquer escusa para não observá-la. A mente que inventa desculpas é imatura, no sentido de que não despertou um sentido de plena responsabilidade.

“As desculpas são tanto biológicas, quanto físicas ou sociais. Patañjali diz que o Grande Voto deve permanecer firme, não deve ser quebrado sob pretexto algum. As palavras usadas para estes pretextos são jāti, deśa-kāla e samaya. Jāti refere-se à hereditariedade. Deśa-kāla às circunstâncias físicas, representadas pelo tempo e espaço. Samaya refere-se às oportunidades sociais. (…) A maioria das pessoas, quando não quer observar as exigências de uma disciplina, reclama de fatores biológicos da natureza, como é indicado pela fraqueza inerente, do ambiente físico que não é [4]apropriado; ou reclamam da falta de oportunidades proporcionadas pela sociedade, família ou grupo ideológico ao qual pertencem. Patañjali diz que nem os fatores biológicos, nem físicos, nem sociais devem interpor-se no caminho das exigências do Grande Voto.”

Os yamas devem ser observados de acordo com os deveres de cada um: um cirurgião irá cortar o paciente, um soldado irá para a guerra, mas o limite é o dever em todas as circunstâncias.

Se você praticar os cinco yamas (II.30) vai notar que há sempre algum tipo de obstáculo. Para combatê-los, Patañjali prega: II.33 vitarka-bādhane pratipkṣa-bhāvanam

  • vitarka = pensamentos negativos ou perversos,
  • bādhane = perturbado
  • pratipakṣa = pensamentos opostos. Pratipakṣa se aplica a outros membros do yoga, tais como āsana, prāṇāyāma e a toda a kriya-yoga a fim de evitar ser indulgente com o prazer em vez de praticar tapas, manter conversar inúteis e perder tempo em vez de praticar svādhyāya, etc. causar sofrimento causar sofrimento
  • bhāvanam = cultivar 

Isto é, quando surgirem pensamentos negativos ou não construtivos, cultive pensamentos que lhes são opostos (positivos), buscando-os na memória. E esses maus pensamentos podem ter como causa a cobiça (lobha), a raiva (krodha) ou a ilusão (mohah). Podem ser nossos, induzidos em outrem ou aprovados por nós quando acontecem. Mas qualquer que seja a razão desses maus pensamento ou ações, causarão sofrimento (dukha) e o aumento da ignorância (avidhya), motivo pelo qual devem ser combatidos por meio da prática dos yamas e niyamas.

E quando através da prática de pratipkṣa-bhāvanam as más ações tiverem sido contidas e os maus pensamentos (as más inclinações) tiverem perdido sua força e frequência, suas sementes também terão perdido a potencialidade de crescer novamente e, então, as mais extraordinárias habilidades se manifestarão, indicando o domínio dos yamas.

B. K. S. Iyengar[5] diz que os efeitos da observância dos cinco yamas são:

II.35 ahiṁsā-pratiṣṭhāyām tat-sannidhau vaira-tyāgaḥo efeito da não violência é tornar amigos aqueles que são inimigos
III.24 maitri-ādiṣu balānia não violência acarreta em força e poder em um caráter amistoso
III.25 baleṣu hasti-bala-ādīnias palavras devem ser proferidas judiciosamente ou ferirão até o fim da vida, ainda mais que as ações – yogīs com o poder de falar sabiamente têm uma força física e mental como a de um elefante ou águia
II.36 satya-pratiṣṭhāyāṁ kriyā-phala-aśrayatvamaquele que vive genuinamente na honestidade, sem desviar-se entre as ações, pensamentos e palavras, é recompensado com a exatidão e a precisão: são palavras se tornam infalíveis
II.37 asteya- pratiṣṭhāyāṁ sarva-ratna-upasthānamnão cobiçar acarreta em não desejar, e isto é devolvido na forma de riqueza mundana e espiritual
II.38 bramacarya- pratiṣṭhāyāṁ vīrya-lābbhaḥaquele que controla os prazeres sensuais desenvolve vigor e energia
II.39 aparigraha-sthairye janma-kathaṁtā saṁbodhaḥaquele que vive livre da possessividade e da cobiça alcança o caminho do conhecimento e da sabedoria, que é real e permanente
III.18 saṁskāra-sākṣāt karanāt pūrva-jā-ti-jñānamtodos os instintos defeituosos do passado desaparecem quando se domina aparigraha e por meio desta maestria obtém-se a percepção direta das vidas anteriores e a sabedoria

 


[1] Citado por Edwin Bryant na obra The Yoga Sūtras of Patañjali, North Point Press, New York, 1ª edição, 2009, pág. 246/247.

[2] Citado por Edwin Bryant na obra The Yoga Sūtras of Patañjali, North Point Press, New York, 1ª edição, 2009, pág. 246/247.

[3] Citado por Edwin Bryant na obra The Yoga Sūtras of Patañjali, North Point Press, New York, 1ª edição, 2009, pág. 246/247.

[4] Rohit Mehta, obra citada, p. 109.

[5] Core of the Yoga Sūtras, Harper Thorsons, India, 1ª edição, 2013, pág. 145/146.

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