Todos os oito membros do yoga (aṣṭāṇga yoga) têm seu lugar na prática dos āsanas. O primeiro é yama, comparado às raízes da árvore porque é a fundação a partir da qual cresce todo o resto. Yama contém os princípios de ahiṁsā (não violência, não causar dano), satya (veracidade, honestidade), asteya (não roubar, não apropriar-se indevidamente), brahmacarya (austeridade, contenção) e aparigrāha (não possessividade, não acumular).

A prática da não violência em um āsana se vê quando os lados direito e esquerdo do corpo estão em equilíbrio. Quando os lados direito e esquerdo estão em harmonia existe a honestidade que é o segundo princípio de yama. Você está sendo honesto, verdadeiro, porque não está escapando à realização do āsana no lado mais fraco, preguiçoso, rígido. Brahmacarya significa que a alma se move com seu ato. Quando existe união da alma com o movimento, isso é brahmacarya, contenção.

E na medida em que damos total atenção à realização equilibrada dos lados direito e esquerdo do corpo no āsana, não há apropriação ou uso indevido do corpo, nem avareza ou apego pois, quando a alma se move com inteligência no corpo, não há o que possuir, não há o que se buscar. Dá-se a libertação da cobiça porque a motivação para tal desaparece. E quando a motivação se vai, o mesmo acontece com as posses e, assim, o desejo de adquirir chega ao fim.

Quando os princípios de yama estão presentes na execução de um āsana, a isso se chama disciplina ética na execução de um āsana.

São também cinco os princípios de nyama. O primeiro deles é śauca, que significa higiene. Num āsana a limpeza se dá pela execução harmônica dele, os dois lados em sintonia são limpos adequadamente e irrigados pelo sangue, que transporta a energia biológica conhecida como prāṇā. Quando estamos executando os āsanas levamos o sangue a cada uma de nossas células, liberando a energia oculta de nosso corpo e trazendo luz, que vivenciamos na forma de santoṣa, o contentamento, que é o segundo princípio de niyama. Mas além dele, há um nível mais elevado de contentamento e de execução de āsanas, expresso nos outros três níveis de niyama: tapas, svādhyāya e Īśvara-praṇidhana.

Tapas é o desejo ardente de purificar cada célula de nosso corpo e de nossos sentidos. E é nesse espírito que um āsana deve ser executado. Por isso Patañjali denomina a prática de yoga de karma-yoga, yoga da ação: porque o desejo ardente de manter todas as nossas partes limpas exige-nos uma ação nesse sentido, uma disciplina.

Svādhyāya quer dizer estudo do eu, no sentido de conhecer cada um dos três níveis e cada uma das cinco camadas do ser humano. Isso é conhecido como jñāna-yoga, yoga do discernimento espiritual.

Īśvara-praṇidhana é bhakti-yoga, yoga da devoção. Quando, por meio da prática, se alcança um estado mais elevado de inteligência e essa identidade madura faz com que se perca a identidade do ser, tornamo-nos unos com o Espírito Universal ou com as Leis do Universo e isto é Īśvara-praṇidhana: a entrega de nossos atos e de nossas vontades ao universo, que é o último dos cinco princípios de niyama.

Em suma, o efeito dos āsanas é manter a pele, as células, os nervos, as artérias e veias, os sistemas respiratório e circulatório, digestivo e excretor, a mente, a inteligência e a consciência, todos limpos e em bom funcionamento. Isso engloba todos os princípios de yama e niyama, que são as raízes e o tronco da árvore do yoga.

A atitude correta na realização de um āsana é de estar totalmente absorvido, com dedicação e atenção voltados para a postura. Deve haver honestidade na abordagem e na apresentação dela e, além de ser honesto consigo mesmo, é preciso ter muita fé, coragem, determinação, consciência e absorção para fazer bem uma postura. O āsana deve revestir a totalidade do ser do praticante com esplendor e beleza. Essa é a prática espiritual em sua forma física.

Āsana quer dizer postura, que é a arte de posicionar o corpo todo com uma determinada atitude física, mental e espiritual. As posturas têm dois aspectos: a permanência e o repouso. A permanência implica em ação, mobilidade. Repousar significa refletir sobre a postura, estabilizá-la. A postura é repensada e reajustada para que os vários membros e segmentos corporais sejam posicionados em seus devidos lugares na ordem certa e a sensação seja de descanso e apaziguamento, enquanto a mente experimenta a tranquilidade e a calma dos ossos, das articulações, dos músculos, das fibras, das células.

Quando essa sensibilidade está igualmente em contato com o corpo, a mente e a alma, entramos em um estado de contemplação ou meditação, onde as dualidades entre corpo e mente, mente e alma, são vencidas ou destruídas.

A estrutura do āsana não pode mudar, pois cada āsana é uma arte em si. O praticante deve estudar cada āsana aritmética e geometricamente para que sua verdadeira forma seja evidenciada e expressa na sua apresentação. A distribuição do peso do corpo deve ser equilibrada pelos músculos, ossos, mente e inteligência. Resistência e movimento devem estar em harmonia. Patañjali diz que, quando um āsana é realizado corretamente, as dualidades entre corpo e mente, mente e alma, desaparecem. Isso é conhecido como repouso na permanência, reflexão durante a ação, mobilidade na estabilidade: sthira sukhan.

Quando os āsanas são executados dessa maneira, as células do corpo, que têm sua própria memória e inteligência, mantêm-se sadias, em consequência mantendo o corpo fisiológico sadio, possibilitando que a mente se aproxime da alma. Esse é o efeito dos āsanas.

Como as folhas que arejam a árvore e fornecem nutrição para que seu crescimento seja saudável, o prāṇāyāma alimenta e areja as nossas células, nervos, órgãos, inteligência e consciência. Quando estamos realizando um āsana, só podemos estender plenamente o corpo se sincronizarmos a respiração com o movimento. Prāṇa é energia. Ayama é criação, distribuição e manutenção. Prāṇāyāma é, portanto, a ciência da respiração que leva à criação, distribuição e manutenção da energia vital. Ao inspirar e expirar o cérebro acompanha esse movimento. Quando retemos o ar, o cérebro se paralisa. O interesse do yogi é manter a cabeça e o coração limpos por meio da harmonia da respiração, e isso é alcançado com a prática dos prāṇāyāmas.

Em termos filosóficos, a inspiração é o movimento executado pelo eu para entrar em contato com a periferia. Esse é o processo evolutivo de exteriorização da alma. A expiração é o processo de retorno, de involução, através do qual o corpo, as células e a inteligência se movem para dentro, para alcançar o cerne do ser. Esse processo de evolução e involução que ocorrem em cada indivíduo é prāṇāyāma.

Kumbhaka é a retenção da respiração, da inteligência e do eu. Quando a retenção da respiração se dá na inspiração, a essência do ser é mantida pelo praticante enquanto lhe é possível reter o ar, sendo essa a meditação sobre a alma (ātma-dhyana). O prāṇāyāma é a ponte entre o físico e o espiritual, o ponto central do yoga.

Quando estamos intensa e totalmente absorvidos na execução do āsana, isto é pratyāhāra. Geralmente, pratyāhāra é traduzido como introversão dos sentidos. Isso significa direcionar os sentidos da periferia da pele para o cerne do ser, a alma. No momento em que a mente se torna silenciosa, a alma repousa em sua morada e a mente se dissolve. De maneira semelhante, quando os músculos e as articulações se mantêm em repouso em suas posições, o corpo, os sentidos e a mente perdem a sua identidade e a consciência brilha em toda a sua pureza. Esse é o significado de pratyāhāra.

O pensamento hindu distingue a mente, aquela que reúne informações, da inteligência, aquela que tem o poder de discriminar o certo do errado e de raciocinar claramente. Os cinco órgãos da percepção entram em contato com os cinco sentidos e enviam suas impressões à mente, que as armazena na memória. A memória anseia por mais experiências e aciona a mente que, ignorando a inteligência, dedica-se à busca repetida dessas experiências sensoriais. Por meio dos prazeres repetidos, os órgãos da ação perdem sua potência e não são mais capazes de estimular os órgãos da percepção ou a mente. A pessoa continua suplicando por vivências passadas, mas não consegue obter satisfação e assim é plantada a semente da infelicidade.

Pratyāhāra significa não permitir que a memória domine, de modo que possa existir uma ligação direta entre a mente e a inteligência. Atingir esse grau de domínio é ter o yoga a seu dispor, é ter um novo conhecimento e entendimento da vida. Patañjali diz que, nesse estágio, a memória, por ter alcançado sua maturidade, perde sua existência, e a mente, livre das memórias do passado, torna-se ainda mais viva, vigilante e sábia (Yoga Sūtras, I.43).

Conduzir a mente em suas divagações a um estado de contenção é chamado dhāraṇa, isto é, concentração ou atenção completa. Quando praticamos um āsana a consciência deve alcançar as fronteiras do corpo em todas as suas partes, sem que haja espaço para outros pensamentos. Isso ocorre quando realizamos o āsana integralmente, com as células, os nervos, a inteligência, a consciência, o ser completo, em unidade.

Manter-se deliberadamente isento de pensamentos é concentração e também meditação. Permanecer positiva e deliberadamente isento de pensamentos é samādhi. O estado deliberado requer uma atenção deliberada. Permanecer com a mente vazia também requer uma atenção especial. Portanto, não existe realmente um estado que, a rigor, possa ser chamado de mente vazia.

A meditação pura é aquela em que todos os veículos da pessoa – seus órgãos da percepção, da ação, a mente, o cérebro, a inteligência, a consciência – são encaminhados para o cerne do ser, sem qualquer divisão nesse estado. A meditação é o equilíbrio dinâmico entre a inteligência intelectual e a inteligência intuitiva. E quando é mantida a estabilidade na experiência, quando a sensação da experiência não oscila, temos samādhi. Sama significa equilibrado, em harmonia.

Se praticarmos yoga com o propósito de cultivar o corpo e a mente, essa é uma prática espiritual. Dessa forma, não existe diferença entre ação e meditação, assim como não há diferença entre haṭha-yoga e rāja-yoga. Haṭha é a força de vontade da inteligência; rāja é a alma. A inteligência, como a ponte entre a alma e o corpo, é o fio usado para tecer corpo e alma numa união divina conhecida como samādhi ou a vivência do uno e do absoluto. Esse é o fruto da árvore do yoga.

Em suma, yama cultiva os órgãos da ação para que possam agir com fins corretos. Niyama civiliza os sentidos e os órgãos da percepção. Os āsanas irrigam todas as células do corpo humano, nutrindo-o com um abundante suprimento de sangue. Os prāṇāyāmas canalizam a energia. Pratyāhāra controla a mente e limpa-a de todas as suas impurezas. Dhāraṇa retira o véu que reveste a inteligência tornando-a aguda e cada vez mais sensível para que possa agir como ponte entre a mente e os recessos da consciência. Dhyāna integra a inteligência. Em samādhi os rios da inteligência e da consciência fluem juntos e se fundem no oceano da alma: então a alma brilha em toda a sua glória.

Isto é yoga.

Marcia Neves Pinto

nasceu em Canoas/RS em 20/11/1962 e iniciou seus estudos de yoga em 2009, quando foi introduzida ao método Iyengar pela professora sênior Karin O’Bannon no 1º Retiro Internacional de Iyengar Yoga com Karin O’Bannon, julho/2009, Florianópolis/SC. É certificada como professora no nível Introdutório II pelo RIMIY, Pune/Índia e ABIY e leciona no Centro Iyengar Yoga Porto Alegre. Vem participando dos workshops dos professores Faeq Biria, Gabriela Giubillaro, Inga Gretzov, Jordi Marti, Karin O’Bannon, Lois Steinberg, María de Jesús Lorrío, Manouso Manos, Melodie Bachelor, Swati Chanchani, desde o ano de 2009. Participou do Intensifs d’été de Blacons/França em 2012 e 2014, com Faeq e Corine Biria, semanas 2, 3 e 4. Fez aulas regulares no RIMYI – Ramamani Iyengar Memorial Yoga Institute, Pune/Índia, no período de 1º a 31/01/2012. Ministra aulas de Iyengar Yoga no Centro Iyengar Yoga Porto Alegre/RS. Coordena o grupo de estudos “Encontros com Patañjali Yoga Sūtras” e “A Yoga do Bhagavad Gita” no Centro Iyengar Yoga Porto Alegre/RS.

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