Constantemente recebo emails sobre recorrentes dúvidas de músicos ocidentais que tentam decodificar a estrutura do Raga. Costumo dizer que para um guitarrista, ou violonista, é fácil tocar Sitar. Contudo, tocar música indiana, respeitando suas regras e seguindo o padrão clássico, é uma das coisas mais difíceis de se fazer.
Como algumas questões acabam por responder as dúvidas de muitos, decidi publicar algumas respostas às perguntas que recebo por mail, a fim de auxiliar no início do entendimento da música indiana, que está implícita em uma cultura milenar profunda, muitas vezes sem transcrição, devido a sua origem oral. Algo que deve ficar claro é sobre a terminologia hindu. Aliado ao fato de não temos um padrão para certos aspectos literários em um país cercado por tantos idiomas e caracterizado pela tradição oral, as terminologias acabam sendo grafadas de maneiras diferentes.

Podemos encontrar diferentes palavras para o mesmo significado, conforme exemplifico:

That ou Thata (forma melódica – série de notas que determinam o Raga).
Aroha, Arohana, etc. – escala ascendente.
Sthay, Ashtay, etc. – corresponde à composição da música.
Raga, Raag, Rag, etc. – melodia indiana.
Pakad ou Pakar – frase musical de um Raga.
Tambura ou Tanpura – Instrumento musical indiano que dá a base.

Tentarei usar definições simples para o melhor assimilamento dos termos, dentro do contexto, considerando que o ato de articular as palavras em sânscrito, com sua respectiva função, por si só já é um grande início de equivalência e entendimento. Em artigos posteriores procurarei entrar nas classificações mais complexas e abrangentes do Raga.
PERGUNTAS
1. a) Sei que as Ragas possuem determinadas notas com nomes diferentes do básico Dó,Re,Mi, Fá.. , b) também sei que algumas delas sofrem alterações se forem tocadas descendo ou subindo, mas li em algum lugar que c) elas obedecem algumas regras, d)como pequenas melodias que devem ser tocadas em certos momentos, não entendi muito bem essa parte, poderia me explicar isso?

Respondendo a esta pergunta por partes:

a) Nomenclatura utilizada:

Sa………………….I
Re………………….II
Ga………………….III
Ma………………….IV
Pa…………………..V
Dha…………………VI
Ni……………………VII

Para entender melhor sua correlação entre a música oriental-ocidental vale a pena utilizar os modos gregos como graus melódicos.

Se pensarmos no tom básico de Dó, a equivalência demonstra:

Sa………………….I……………………Dó (C)
Re………………….II…………………..Ré (D)
Ga………………….III………………….Mi (E)
Ma………………….IV………….….Fa (F)
Pa……………………V………….….Sol (G)
Dha………………….VI………….…Lá (A)
Ni……………………VII………………..Si   (B)

b) Movimentos melódicos:

Melodia ascendente é chamada de Arohana
Melodia descendente é chamada de Avarohana

Cada Raga tem sua regra própria, que consiste em quais notas devem ser tocadas ao subirem e ao descerem.

Um exemplo para ilustrar o estudo é o raga Yaman:

Aroha (ascendente)

Ni (B) Re (D) Ga (E) ma (F#) Dha (A) Ni (B) Sa (C)

Avaroha (descendente)

Sa (C) Ni (B) Dha (A) Pa (G) ma (F#) Ga (E) Re (D) Sa (C)

Obs: o Raga Yaman tem a nota ma alterada (tivra) = sustenido.

c) Regras utilizadas:

Notas que são tocadas na subida e na descida (cada raga tem sua estrutura). Na Yaman não tocamos na subida Sa Re, nem Pa Dha.

Na descida tocamos toda sequência de notas.

Utilização de uma nota principal, a qual deve ser tocada mais como um centro tonal (Vadi) e a utilização de uma nota secundária, que deve ser evidenciada também durante a apresentação da raga (Samvadi).

d) Também temos a execução de uma melodia que caracteriza a identificação da raga. Esta melodia é conhecida como Pakad. No caso da Raga Yaman, temos o Pakad:

Ni (B) Re (D) Ga (E) Re (D) Ga (E), Ni (B) Re (D) Sa (C)

2. Li também que músicas indianas não possuem harmonias, o que me dificulta a utilização das ragas pois gostaria de aplicá-las sobre musica ocidental, ou seja, música com harmonia. Como saber qual raga usar numa música com harmonia?
É verdade, não encontramos registros de harmonias na música indiana. Na Índia temos a divisão de melodia (raga) e ritmo (tala). O instrumento que dá a base para a música indiana é conhecido como Tanpura (ou Tambura) e é afinado com duas notas que nunca modulam Sa (C) e Pa (G).
Antes de aplicar o conceito harmônico em um raga você deve estudar sua estrutura e compreender seu desenho melódico. A partir desta análise você encontrará os acordes que melhor combinam com a estrutura melódica contemplada. Diferentemente do conhecido ocidental de tom maior e menor, na música indiana temos centenas de variações melódicas, às vezes encontrando terças maiores e menores na mesma escala (por exemplo). A complexidade dos ragas não nos impede de correlacionar com o conceito harmônico ocidental.

Posso citar como exemplo a raga Yaman, utilizando sua nota alterada (ma = F#).

Frase melódica encontrada =  Ni (B) Re (D) ma (F#) Dha (A) Re (D)
Acordes correspondentes    = Bm (notas: B, D, F#) ou D (notas: D, F#, A)
Tom (Sa = C)                        = Dó

3. Ragas podem ser tocadas em diferentes tons? Ou são únicas?

Sim, podemos tocar em qualquer tom.

Podemos tocar uma raga em Dó, Re, Mi bemol, F#, etc. não existe limite para tal. Contudo, não se prendaao conceito ocidental de escala maior pois vale a pena ressaltar que cada raga possui sua estrutura melódica específica.
No caso da música clássica indiana, quando tocamos com diversos grupos, costumamos perguntar: “ – seu Sa está em qual nota?” E aí mandamos ver.

4. Os Ragas obedecem ao mesmo raciocínio de Intervalos da escala ocidental Maior?

Escala modelo maior ocidental: Dó Re Mi Fa Sol Lá Si Dó

Esta estrutura corresponde a um Raga (Bilawal). Além do bilawal temos centenas de formas melódicas, portanto, não fique com a idéia fixa de estrutura ocidental na cabeça, tente estudar e entender o desenho melódico de um raga e sua estrutura. Costumo dizer que cada raga tem seu tempero oriental especial. São incríveis e marcantes. Utilizando suas regras você irá encontrar todo seu encanto e magia.

5. Vadi e Samvadi são as notas em que devemos descansar num Raga?

Vadi é a nota principal dentro de uma melodia. Nota que devemos evidenciar numa execução.

Samvadi é a nota secundária.

É complicado afirmar que neste caso trabalhamos com uma tônica e uma subtônica, contudo é correto dizer que são notas onde “descansamos” ou as evidenciamos, dedicamos mais tempo nelas.
Como uma imagem é melhor do que mil palavras, segue um vídeo introdutório do Raga Yaman.

Tom Eb

1:54 a melodia exemplificada é:
arohana
N R G, R G m P, G m D N S

2:16
S N D P m G R, R G m P, R S

Estas foram algumas das principais perguntas encontradas pelos pesquisadores e curiosos de música clássica indiana. Caso você tenha outras dúvidas ou sugestões para as respostas acima, mande um mail para sun.shankara@gmail.com que terei prazer em publicar e acrescentar ainda mais na semente da música clássica indiana no Brasil.
Este artigo é dedicado a todos os músicos que se esforçam para entender e transmitir esta arte milenar no Brasil.
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