A verdade da Existencia do Sofrimento, no qual estão ressaltados e entrelaçados conceitos de impermanência (Anicca), de insatisfatoriedade (Dukka) e impessoalidade (Anatta) (inexistência de uma individualidade eterna e imutavelmente, a ilusão de um eu substancial) leva a toda desarmonia que vemos a nossa volta, e que também experimentamos dentro de nos.

Buda não nega a felicidade, pelo contrario, no texto Anguttara-Nikaya, que contem seus discursos em páli, ele enfatiza a felicidade na vida familiar, na vida solitária, nos prazeres dos sentidos, na renuncia, no apego, no desapego, no físico, no mental etc; como tudo isso é impermanente, tudo esta contido em Dukka. Sendo assim, Dukka não deve ser entendido no sentido mais restrito de dor, mas sugere que tudo que é impermanente, instável, efémero e perecível é Dukka, pois são situações capazes de gerar sofrimento.

Buda nos mostra que, quando as coisas são vistas com objetividade, há a verdadeira libertação. Basta vermos suas palavras em Majihima-Nikaya I (Walpola Rahula, 1961):

Bhikkhus, se os solitários ou brâmanes não chegarem a compreender, de uma maneira objetiva e correta, que satisfazer os sentidos é um prazer, e que a não satisfação dos prazeres é insatisfação, e que a libertação dos mesmos por sua vez é a libertação , então sera impossível que compreendam por si próprios, de maneira objetiva e correta, o desejo dos prazeres dos sentidos, e também não serão capazes de instruir, sobre o assunto, qualquer outra pessoa e, por conseguinte, esta pessoa seguindo seus ensinamentos não compreenderá corretamente o que é o desejo da satisfação dos sentidos. Porem, bhikkhus, se os solitários e brâmanes compreenderem, de uma maneira correta, que o desejo dos prazeres dos sentidos é prazer, que a não satisfação deles é insatisfação, que a libertação deles é a libertação, então sera possível compreender por si mesmos, de uma maneira segura e completa, o desejo dos prazeres dos sentidos e, só então, poderão instruir outras pessoas sobre este assunto e essas pessoas, certamente, seguindo esses ensinamentos, compreenderão objetivamente e corretamente os prazeres dos sentidos.

0 conceito de Dukka leva em conta que as três características da Existência Condicionada são: sofrimento, impermanência e ausência de um eu essencial e verdadeiro.

A existência condicionada é sofrimento (Dukka — Dukka)

É composta de três tipos:

  • Sofrimento  físico: Quando sentimos uma dor física, por exemplo, quando prendemos o dedo na porta.
  • Sofrimento potencial: Quando tudo que nos gera prazer, potencialmente pode nos causar dor.
  • Sofrimento metafisico: Quando nada que seja material ou condicionado pode satisfazer, definitivamente e em total plenitude, o espirito humano, pois  no Incondicionado, encontramos a Verdade em Si.
A existência condicionada é impermanente (Viparinama Dukka)

Sabemos que tudo que é condicionado é impermanente. Palavras como sempre, nunca, jamais etc. são difíceis de ser mantidas. Tudo pode mudar muito depressa independente de nossa vontade, pois a ilusão de que o controle está em nossas mãos nos leva ao sofrimento.

A existência condicionada e destituída de um eu verdadeiro (Sankhara—Dukka)

Resumidamente, podemos dizer que ha uma ausência de “eu” em nós, enquanto fenômenos condicionados. Basta observarmos que nossas emoções não são emoções reais, alem disso, temos dificuldade em perceber que os nossos pensamentos não são pensamentos reais e, muitas vezes, não nos sentimos como sendo reais. No nível mundano, falta-nos a autenticidade e não encontramos um eu verdadeiro, só no nivel da Realidade Incondicionada encontramos o eu genuino e autentico.

Cabe aqui acrescentarmos que o Budismo nos leva a perceber que cada ser vivo, cada fenômeno, cada objeto, cada situação composta por diversas partes que, por sua vez, são compostas por outras partes e assim sucessivamente. Tudo é composto, agregado ou interdependente de contribuições externas para ter sua existência assegurada. No Budismo, é enfatizada a teia das interdependências de todos os seres e, por força da impermanência, tudo que se compõe, se decompõe Dizia Buda: tudo o que é agregado, se desagrega.

No mundo nada é autentico, nos diz Shangarakshita (1990) e, se olharmos com mais objetividade, veremos que a existência de um ser ou de um objeto é dependente de infinitos fatores, externos e internos, que poderíamos retalhar e decompor analiticamente como “eu”. Em termos físicos, se observarmos o corpo, veremos que é a descendência dos gametas e genes dos nossos pais e, estes, de nossos ancestrais, e que esses gametas se juntaram para formar um ovo, que foi nutrido no ventre de nossa mãe com alimento que, em última analise, veio de fora dela, por meio do processo da alimentação. Desenvolvemo-nos gracas as contribuições ininterruptas de alimento em forma de nutrientes e oxigênio trazidos pelo sangue de nossa mãe. Mas, e apos nascidos, continuamos nosso processo de mudança e desenvolvimento, crescendo e morrendo a cada instante, sempre adquirindo coisas e devolvendo coisas para o ambiente em que vivemos. E um processo que continua até a morte.

Como podemos acreditar (ou pensar) que este corpo é estritamente nosso se ele realiza trocas com o meio ambiente por suas funções de assimilação e excreção? Se dentro dele ha tanto de ar, terra, água e fogo? Isso tudo em nível material. Em nível “mental”, é ainda mais marcante a instabilidade, pois somos um composto de consciência, tendencias mentais, sensações , percepções etc, funcionando em conjunto num ritmo caótico e sem controle. E, cada um destes itens mencionados, esta sujeito ao condicionamento do ambiente. Como podem ser considerados “autênticos”? Como podemos chama-lo de “ego” ou “eu” permanente quando a nossa própria personalidade muda e se atualiza conforme a passagem dos anos? 0 ensinamento de Buda, quanto a ausência de “eu” nos seres e de uma substancia eterna nas coisas, não é fácil de entender, mas basta fecharmos os olhos só um pouco para vermos os pensamentos desconexos, as lembranças, os gostos e desejos ocultos voarem ante os nossos olhos mentais. Você nem programou mas eles estão lá. Você desejaria que os pensamentos cessassem, mas eles não atendem ao seu desejo. E por que? Porque não existe um eu ou alma eterna que detenha o controle.

A própria “bagunça” mental que você observa na meditação é seu “eu”. Esse fluxo continuo de sentimentos, pensamentos e sensações , que chamamos de “eu” é uma consciência puramente de ligação que de uma sensação de continuidade, mas e altamente afetada pelo bom funcionamento dos neurônios e da memoria. Se, por acaso, batermos a cabeça e danificarmos uma parte do cérebro e adquirirmos certa “amnesia”, para onde diremos que o “eu” foi? Deixou de existir, ou nunca existiu? E por ser altamente dependente e composto que ele é tao frágil e ilusório… Com isso, o que percebemos é que o “eu” surge e desaparece continuamente ante o surgimento de uma serie de causas e efeitos contínuos, nos quais verificamos que não existe substancia permanente.

Fonte: Budismo e Yoga por Hélio Cyrino

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