Muitos já tiveram a experiencia de viajar da cidade para o interior e observar queimada controladas em fazendas. Muitos não sabem das preparações necessárias como a verificação da velocidade e direção do vento e a previsão do tempo para evitar surpresas indesejáveis ou imprevistas. Para nós nada disso faz sentido , especialmente quando olhamos os efeitos após a queimada; tudo fica carbonizado e destruído. Mas, dentro de algumas semanas, um minúsculo crescimento verde brotando através da terra aparentemente morta, trazendo nova vida e beleza, uma espécie de novo começo e entendemos que a terra tinha que ser queimada e livrada de seus detritos para que pudesse voltar a dar delícias generosas novamente.

Tapas literalmente significa “calor”, e pode ser traduzido como uma catarse, austeridade, auto-disciplina, esforço espiritual, mudança, tolerância ou transformação. Tapas tem o sentido de nos “cozinhar” no fogo da disciplina para nos transformar em outra coisa. É o nosso esforço determinado para se tornar alguém de caráter e força. Assim como cozinhar um ovo acaba desnaturando o ovo e transformando-o em algo diferente, Tapas, eventualmente, acaba mudando a nossa natureza, nos transformando em um caldeirão que pode resistir a qualquer desafio da vida. Tapas é a escolha diária de queimar hábitos não-saudáveis ao corpo e à mente, escolhendo abandonar prazeres momentâneos para ter recompensas futuras.

Na Índia, alguns renunciantes espirituais praticam austeridades extremas. No auge do inverno, eles se sentam durante três horas no frio vestidos apenas com uma tanga, levando um recipiente que escorre água fria em suas cabeças e em seus corpos quase nus a cada três horas. Eles realizam essa prática por quarenta e cinco dias seguidos. No calor do verão, eles constroem cinco pequenas fogueiras em torno de si e uma em um recipiente em suas cabeças. Em seguida, se sentam durante três horas nesse calor escaldante. Eles fazem isso todos os dias e se sentam por três horas durante quarenta e cinco dias. Isso é feito para que se estabeleçam em um firme e inabalável centro que não é perturbado por nada que o mundo externo possa trazer. Eles praticam ficar parados, não importa que pensamentos ou medos estejam correndo em suas próprias mentes.

Nossa prática não precisa ser tão assustadora; no entanto, o exemplo destes devotos espirituais pode nos inspirar a levarmos mais a sério nossa disciplina. E, muito parecido com aquela queimada controlada, precisamos prestar atenção no que é possível, seguro e oportuno para nosso contexto de vida atual. Quando tivermos “testado o vento”, podemos acender o fósforo, queimando nossa preguiça e nossos desejos egoístas. Além de praticar Tapas, estando presentes nas nossas esteiras para a prática de uma postura regular ou através de constantes atos altruístas, que nós nos ofereçamos para a versão mais elevada de nós. Que nós possamos suportar o calor para conseguirmos produzir “delícias generosas” com nossas vidas.

Esta orientação não só fala sobre nosso esforço pessoal, mas também sobre aqueles momentos catárticos de desespero quando nos encontramos na dor da perda inesperada, em uma doença debilitante, ou no meio de uma vida que parece que foi virada de cabeça para baixo. É quase como se Deus tivesse verificado os ventos e começado o fogo e nós mesmos somos o campo que está sendo queimado. E, assim como observamos a queimada no campo, nada disso faz sentido para nós no momento. No entanto, são essas momentos que nos formam e nos moldam como alguém com profundidade. Nossos detritos ficam queimados e acabamos nos tornando mais humildes e reforçados pelo mistério do que está além do nosso controle ou compreensão. São essas horas mais escuras da dor, perda e confusão que constroem algo profundo em nós.

O professor espiritual Ram Das fala eloqüentemente sobre a preciosidade de Tapas. Quando ele passou por um acidente vascular cerebral debilitante, algo que ele nunca esperava que acontecesse consigo, ele encontrou uma nova oportunidade para si e para os outros conforme começou a lutar com as possibilidades e os efeitos do envelhecimento. Ele escolheu falar de sua experiência como “ter sido acariciado” por Deus, ao invés de ter tido um acidente vascular cerebral. E ele usou a frase “graça feroz” para falar de sua experiência de ser queimado pelo fogo do amor divino.

 “A crise é algo terrível pra ser desperdiçada.”

Nós podemos rir o quanto quisermos, mas há uma grande verdade nessa afirmação. Tapas pode nos levar ao lugar onde todos os nossos recursos são utilizados, onde não sobra nada além da fraqueza, onde todos os nossos “acessórios” foram levados. E é neste lugar estéril, onde nós esgotamos tudo o que temos e tudo o que somos, que uma nova força e caráter nascem, se nós optarmos por nos abrir, sem medo da experiência. É talvez o maior presente que a vida pode nos oferecer.

Charlene Westerman fala francamente sobre o perigo e a possibilidade de catarse quando ela afirma que, durante esses momentos, temos duas opções: nos destruirmos ou nos abrirmos. Não podemos evitar esses momentos de catarse em nossas vidas nem saber como virão, mas podemos nos preparar para eles através de nossa prática diária, através da construção de nossa capacidade de permanecer no desconforto, e através das pequenas escolhas diárias que fazemos.

Comments