Você já se perguntou quem você é? Como surgimos no mundo ou o que nos acontece quando morremos? Essas questões filosóficas acerca da existência têm intrigado pessoas ao longo de toda a História. Surgiram a partir dessas inquietações diversas teses e inúmeras interpretações sobre tais teses.  A ciência moderna tem nos ajudado muito nessa tentativa de compreender o universo a nossa volta e os segredos do corpo e da mente humana. Embora muitos cientistas tenham se empenhado nesse sentido, os métodos empíricos pouco podem nos ajudar no que se refere ao autoquestionamento. Existe ainda hoje um grande mistério que envolve os fenômenos de nascimento e morte.

Na Grécia antiga os cidadãos de classes sociais mais altas realizavam longos debates acerca dessas questões existenciais. Mais do que um sinal de status dedicar-se as discussões filosóficas era um privilégio de poucos. Sem querer levantar nenhuma bandeira sobre determinismo econômico, afirmo que ainda hoje a filosofia é privilégio de uma elite intelectual. Uma pena…

A maioria da população mundial, ocupa sua mente no processo de produção e consumo  mantendo de modo geral a responsabilidade de suprir suas inquietações filosóficas sob a tutela de instituições religiosas,  governamentais ou mesmo midiáticas. Essa mentalidade é resultante de um longo processo de submissão no qual a humanidade gradativamente passou a acreditar que era incapaz de resolver seus próprios questionamentos como indivíduo. Foi atuando no magistério como professora de História que pude constatar os graves desdobramentos desse processo. A escola é a primeira instituição a sugestionar contraditoriamente, a  incapacidade individual. Na escola esperamos que o professor nos apresente o mundo sem que possamos  experimentá-lo por nos mesmos. Lá aprendemos quais devem ser as nossas principais preocupações e aspirações. Aprendemos a acreditar nos livros sem, no entanto, compreender que eles também são escritos por pessoas como nós. Confiamos no corpo docente permitindo que ele vá modelando nossa mentalidade. Aos poucos tornamo-nos inseguros e dependentes deles e com uma reduzida capacidade de aprender de forma autodidata ou intuitiva.  Na nossa sociedade pensar filosóficamente é tão incomum que costumamos taxar pessoas questionadoras como inconvenientes quando não, completamente loucas.

Essa mentalidade presente de maneira hegemônica na nossa sociedade, no entanto, não é a única perspectiva existente. O pesquisador Georg Feuerstein estudou profundamente a tradição do Yoga e descreve, em seu livro de mesmo nome, formas pouco convencionais de conhecimento denominadas por ele “tecnologia psicoespiritual” no qual os adeptos se valem de métodos cognitivos como a clarividência que são atingidos por meio da introversão.

Para a maioria das pessoas esse tipo de método nada empírico pode parecer bizarro e digno de pouca credibilidade. Creio, no entanto, que cada objeto de observação exige um método próprio de estudo. Nesse sentido, a tradição milenar do Yoga vem complementar de forma paradoxal a grande lacuna existente no paradigma ortodoxo de ciência ampliando o conceito de aprendizagem e de conhecimento.   Se a ciência propõe um processo de distanciamento entre sujeito e objeto (quando não uma negação arbitrária do subjetivo) a tecnologia psicoespiritual propõe a total imersão do sujeito em si mesmo para uma melhor compreensão de si e do mundo a sua volta.

Na atualidade e principalmente para nós ocidentais torna-se cada vez mais evidente a necessidade de novos conceitos. O direcionamento de nossos esforços para um sistema de produção e consumo tem exigido demasiadamente da natureza e trazido um retorno ínfimo para a sociedade. Não nos sentimos integrados ao meio-ambiente e qualquer noção de bem –estar bem como, nossa noção de cidadania estão completamente vinculado ao consumo. A mentalidade do mundo corporativo incentiva a competitividade. Esquecemos de superar nossos limites e não queremos mais superar a nós mesmos, pois ficamos felizes por acreditarmos que podemos ser melhores que os outros.

A busca da transcendência da condição humana vem impulsionando o desenvolvimento da humanidade desde os primórdios. Segundo a tradição do Yoga o maior obstáculo para essa transição é o Ego, ou o que eles chamam de personalidade egóica. Para os adeptos do Yoga  todas as nossas inquietações e dúvidas e sofrimentos têm origem no ego. A superação dessa personalidade é perfeitamente possível de modo que somente a transcendência do ego pode trazer felicidade plena. Esse estado de consciência é conhecido popularmente como iluminação, nirvana ou Samadhi.

O Yoga nesse contexto poderia ser definido tanto como o processo(prática) necessário a iluminação como o próprio estado de iluminação já que o termo se refere tanto a prática quanto a união com do indivíduo com o “todo transcendental”. Para os yoguis a noção que temos de ego não passa de uma ilusão (maya) e devemos despertar dessa ilusão para que possamos unirmo-nos com a consciência suprema que abrange todas as coisas. Quando nossa consciência individual não existir estaremos em Samadhi.

Essa parece ser uma tarefa muito difícil para quem vive em uma sociedade que cultua o indivíduo e valoriza o ego.  Vê-se portanto, que o diálogo entre essas duas concepções poderá trazer novas perspectivas não apenas para as questões filosóficas (consideradas abstratas demais para a maioria) como pode tornar-se base para novas diretrizes políticas, sociais e culturais.

Acredito particularmente, que o caminho de Samadhi, a Sadhana, possa ser trilhado por qualquer criatura.  Não poderia ser diferente. A  Sadhana não seria um caminho verdadeiro se fosse somente para uns poucos eleitos ou para uma elite privilegiada . O caminho pode acolher as mentes mais complexas bem como as mais simples.

Há no mundo infinitas formas de alcançar Samadhi. Para tal existem muitos métodos descritos ao longo da História. Uma pesquisa rápida na internet poderia ilustrar superficialmente diversas formas de Yoga embora, de modo geral, conheçamos somente algumas poucas vertentes do tantrismo aqui no ocidente…

Muitas pessoas são atraídas também pelo poder terapêutico dos asanas e pranayamas, pois eles são a principal forma pela qual Yoga é conhecido por aqui. Alguns nem sequer sabem que as posturas são uma parte relativamente pequena de toda uma filosofia milenar. Isso não quer dizer que devemos excluir todas as pessoas que chegam nos centros de Yoga devido a uma dor nas costas ou aquelas que querem somente relaxar e reservar para si um momento particular na sua rotina corrida. Como dizem os cristãos, Deus age de forma misteriosa. Quem sabe o que uma aula de Yoga pode despertar nos indivíduos? Talvez uma nova perspectiva sobre seu corpo ou mesmo sobre seu ser e existência.

A Sadhana é para todos assim como o Yoga. Não obstante, nem todos estão prontos para essa jornada, pois ela é árdua e exige total entrega. Não pela prática de posturas que exigem flexibilidade ou pelas purificações, jejuns e todos os diversos tipos de abstinência como a da carne. Creio eu, que a disciplina mais rigorosa seja a que se deve impor ao ego e a mente. O maior desafio é abandonar nossos condicionamentos.

Tenho muita dificuldade em definir o que é yoga, pois não creio que as palavras possam de fato descrevê-lo. Embora haja uma convenção sobre o que é Yoga ou como Yoga deve ser vivenciado (Com yama, niyama, ásana, pránáyáma, kriyás etc.) acho que o Yoga engloba tudo isso e ao mesmo tempo transcende tudo isso. Não existe forma certa ou errada de se fazer Yoga. O Yoga não é uma idéia de Patanjali. Não está restrito aos Sutras, vedas, nem em nehuma outra escritura.  Yoga não é um patrimônio dos Hindus. Não é algo que se encerra no seu próprio conceito: Yoga. Nem nas pessoas que trouxeram essa tradição até nós. O Yoga não é estático, pois nasce uma nova forma de yoga a cada minuto e também morre uma forma de Yoga a cada minuto. Pois o Yoga é agora… agora… agora…

Namastê

Mariana Cordeiro

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