Desde criança nunca fui muito dependente de carne na minha alimentação. Quando escolhi o caminho do Yoga o vegetarianismo começou a acontecer quase que naturalmente embora de forma lenta e gradual. A tomada de decisão definitiva foi durante o Curso de Formação de Instrutores de Yoga na palestra do professor Oberom. Foi quando entendi em minha alma o que deveria fazer. O vegetarianismo é um chamado interior. Não se pode virar vegetariano por que alguém falou que é o certo. Se você não tiver um motivo interior bem definido é muito difícil fazer a transição. Você precisa acreditar na importância do que está fazendo. Para ser vegetariano é necessário muito comprometimento (Tapas).

Nem todo yogui é vegetariano e nem todo vegetariano é yogui. Mas afinal de contas qual é a relação entre Yoga e vegetarianismo? E o que isso tudo tem a ver com ecologia?

Uma pessoa que faça uma viagem de carro, ônibus ou mesmo avião entre o Rio de Janeiro e São Paulo pode verificar o quanto de nossa mata atlântica foi devastada para o cultivo de pasto e comparar com o quanto foi desmatado para outras culturas. O resultado desse tipo de cultura é o empobrecimento e erosão do solo sem falar na devastação da própria fauna e flora local. O fato é que quando pensamos em custo benefício para o homem e para o planeta encaramos a seguinte situação: Para que a criação de gado aconteça é preciso desmatar áreas imensas de mata. O volume de água potável envolvido no processo de criação e processamento da carne é absurdamente superior à maioria das culturas de vegetais. Os custos desse tipo de produção são altos de modo que no Brasil muitas pessoas não tem acesso à carne. Os gases emitidos pela imensa população de bovinos polui nossa atmosfera e seus dejetos poluem os lençóis freáticos. Violência e sofrimento são impostos sistematicamente aos animais. Em resumo o que queremos dizer é que temos um grande impacto ambiental e social sem que de fato a pecuária tenha um retorno benéfico para a maioria da população humana. Nesse sistema somente alguns são beneficiados enquanto outros padecem.

No contexto da tradição do yoga acreditamos que todos nós devemos agir de acordo com a harmonia universal que convencionamos chamar de Dharma. Por esse motivo os yoguis seguem uma série de princípios que acreditam estar de acordo com essa harmonia. Um deles é ahinsa que segundo P.R. Sarka significa que suas ações e pensamentos não devem tem a intenção de prejudicar ninguém. Esse termo é habitualmente traduzido como prática de não-violência ou não-matar de acordo com o ramo de tradição. Ahinsa é a base da prática vegetariana dentro da tradição embora também possamos tomar como alicerce muitos outros preceitos morais do yoga. Todos nós sabemos que o processo de abate impõe medo e sofrimento aos animais. Pelo menos para mim parece intuitivamente que essa prática não está de acordo com a harmonia universal.

Muitos praticantes de yoga não são vegetarianos. Nem todo organismo e nem toda mente está pronta para essa transformação. Algumas pessoas podem precisar alimentar-se de carne por questões de saúde. Outras simplesmente não conseguem se desvincular do consumo de carne pelos mais variados motivos. Isso não faz de ninguém uma pessoa menos digna, menos humana ou uma pessoa menos espiritualizada e consciente. Nem cabe a nós julga-las. Como aspirantes espirituais devemos sempre incentivar o vegetarianismo, sem arrogância e descriminação. Pois se comer carne não é uma conduta admirável, é ainda pior achar que somos melhores que os outros porque não comemos. Lembremo-nos que no caminho do Yoga podemos encontrar seres de luz intensa, mas de modo geral estamos em maioria engatinhando em direção à essa luz.

Certamente o vegetarianismo é mais fácil de ser realizado por um brasileiro que por um esquimó. Mesmo em locais de tradição espiritualista como o Tibet, o vegetarianismo é uma tarefa quase impossível devido às condições geográficas, geológicas e climáticas. Estamos em um país abençoado no qual podemos desfrutar de diferentes climas, solos e plantas variadas.  Temos uma oportunidade maravilhosa de praticar o Dharma em nossas vidas!

Como começar? Primeiro é preciso ter certeza do que quer. Não vale a pena tornar-se vegetariano pelos motivos errados. Modismo, opiniões alheias, nada disso vai ajudar a sustentar sua decisão. Se quiser tornar-se vegetariano faça por amor, compaixão, ideologia, fé. Comece somente quando conseguir olhar para um filé e enxergar nele uma vaca. Por mais estranho que pareça muitas pessoas não fazem a conexão entre o filé e a vaca. Já ouvi gente dizer que se visse vivo, o animal que seria servido no jantar, não conseguiria come-lo. Ficamos tão acostumados a pegar o “produto” nas prateleiras dos supermercados que muitas vezes é difícil acreditar que o bacon venha mesmo do porquinho. Por mais que seja um incomodo admitir isso na hora do jantar, todos nós sabemos que matar os bichinhos não é legal. Acabamos nos acomodando, fingindo e negando para nós mesmos. Afinal os bichinhos nem sofrem tanto. Hoje em dia já existem métodos de abate humanitário. Precisamos da carne para viver. Somos carnívoros não vê meus caninos? E, além disso, é a lei da natureza. Isso tudo pode servir de desculpa. Mas até quando?

Um princípio básico do Yoga é a busca pela consciência. Será que uma pessoa que fica tão chocada ao ver um animal morrendo a ponto de não conseguir come-lo pode estar agindo de acordo com a sua consciência quando compra um animal já morto no mercado e consegue comer sem culpa? Creio que não. Sem duvida essa pessoa está longe de agir de forma coerente quanto mais consciente. Ela não está agindo de acordo com sua consciência e sim de acordo com seus condicionamentos. Não caia nas suas próprias desculpas.  Acredite em você mesmo! Dentro de você há infinita compaixão! Transcenda as imposições sociais e midiáticas! Você é capaz…

Vivemos em um mundo em que a noção de cidadania se dá pelo seu poder de consumo. Somos cidadãos consumidores. Se esse é o ônus da política liberal de nosso tempo devemos usar esse princípio como ferramenta de transformação social. Usemos a demanda a nosso favor. O desrespeito à natureza começa na nossa demanda. No nosso desrespeito. Por que simplesmente queremos consumir sem nos importar com as consequências. Sem pensar em quem está sofrendo o ônus desse consumo. Precisamos despertar para essa realidade. Somos capazes de promover uma revolução apenas mudando nossos hábitos. Nós somos peça chave na engrenagem da indústria de alimentos. Enquanto fecharmos os olhos para o sofrimento animal eles continuarão sendo simplesmente produtos. Coisas, objetos, ingredientes…

Namastê

Mariana Cordeiro

Fontes de pesquisa e inspiração

Pedro Kupfer: Vegetarianaismo e Yoga, Cadernos do Yoga

Nestor Canclini: Consumidores e Cidadãos

Prabhat Ranjan Sarkar: Um Guia Para a Conduta Humana

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