yogini

Texto: Juliana Araujo

Um avião cai. Em poucas horas todos sabem dessa notícia. Um acidente. Um terremoto. Comoção geral. Pessoas sofrem, choram e se comovem na TV e on line. A informação circula e voa, assim como o tempo que parece cada vez voar mais rápido. Um som avisa sobre uma mensagem no computador. As palavras chegam cortadas, faltando letras, complicadas de se decifrar, toda codificada: ‘R u fine’. Respondo com uma carinha sorridente. Superficial assim. Tudo para tornar mais ágil o papo. A vida passa rápido, pessoas vêm e vão. A era é a da tecnologia para facilitar a vida. Não se perde mais tempo cozinhando e nem conversando. Tudo é feito para valorizar o tempo ? universidades à distância, cursos superiores em menos tempo. Precisa-se falar vários idiomas. Conquistar o mundo, aprender a influenciar as pessoas, motivá-las a produzir mais e consumir mais. Aprender várias maneiras de usar melhor o tempo, o que conseqüentemente, para serem aprendidas, consomem o tempo. Obter o máximo possível de informações sobre os mais diferentes assuntos – www.saibatudoemaisumpouco.com.br.

Estar por dentro, estar antenado, estar ligado e conectado. Conhecer de artes, tecnologia, política, astrologia, religião, espiritualidade te destaca na multidão e o coloca numa situação melhor que os demais.
Toda essa competitividade e urgência me levaram um dia a entrar numa sala de Yoga. E a ansiedade companheira de sempre, foi comigo. E aumentou muito! Aquilo que deveria ser um bálsamo na minha existência fez piorar a minha competitividade e ânsia por ser uma pessoa melhor. Descobri que yogisdormiam, comiam e falavam pouco e eu pensava: fazem o quê com o tempo livre?
Tempo não é dinheiro? Então serviria para trabalhar mais, ganhar mais e depois de muitos anos, viajar e curtir a vida.
Eu descobri que era uma Pitta em desequilíbrio, segundo meu professor, que entendia de ayurvédica e me dava uns chás horrorosos pra tomar. Esse distúrbio de doshas me levou ao desespero para conquistar meu corpo e encaixá-lo nas posturas; ganhar alguns músculos e flexibilidade; passei pela penitência de ficar segundos focando minha atenção num símbolo cheio de formas geométricas; entrei na paranóia de virar uma vegetariana e saber tudo sobre a culinária em alguns minutos, e além de tudo, mudar a alimentação de todos que estavam ao meu redor para facilitar a minha vida; percorri pela vontade absoluta de ter a vida linda e maravilhosa do meu professor que me parecia tão calma, tão serena, tão perfeitamente maravilhosa; e chegar a tudo isso bem rápido. Cheguei à loucura com as comparações.
‘Minha perna não vai tanto quanto aquela da fulana’.
‘Como é que a perna daquele garoto passa por trás do pescoço?’.
‘Professor, o que eu tenho que fazer para chegar a isso?’ (detalhe: mostrando a foto do ásana no livro e apontando freneticamente com o indicador). E o professor explica: ‘tenha compaixão e paciência. O importante não é a conquista do seu corpo, mas a conquista sobre si mesmo! Trabalhe com a não violência e honestidade.
Eu observava tudo com rugas na testa e pensava: ‘Hã? Estou num treino para Dalai Lama?’ Anos de prática e eu começava a vivenciar aquilo que me parecia Yoga. Meu ásana saia mais fácil, minha respiração estava fluindo melhor, já permanecia cerca de dois segundos concentrada e meu silêncio era o mais silencioso de sala.
Só que eu sentia que tinha mais além daquelas posições e respirações e queria esse algo mais por trás daquele Om que eu repetia sempre; daquele mantra que tem uma tradução linda, algo relacionado à felicidade e plenitude, mas que já nem me lembrava, porque meu vatta estava sempre me atrapalhando. Então, comecei a investigar a aula porque desconfiei que o professor desse algumas mensagens subliminares ali no meio dos exercícios e já havia ouvido falar sobre este negócio com um amigo da publicidade, parece que algo relacionado a você querer comer pipoca no cinema, enfim, tinha que descobrir o que se passava porque no yoganidra eu aproveitava para cochilar e ele continuava falando, sabe lá o quê. Podia ser perigoso. E o negócio do sankalpa? Fica lá mentalizando uma coisa. Esquisito. Queria compreender e de preferência já! Assim como quando você joga um nome lá no Google, eu queria todo o conhecimento dos Vedas eUpanisads banda larga.

Pedi uma indicação de um livro bom e descobri que Yoga parece, cheira, anda e vive como uma religião. Duvidei e assustei. Sabia! Ele esta querendo importar uma religião! Será que estou virando uma adoradora do cabeça de elefante? E o professor que parece só entender de como respirar e como encaixar o quadril quer conquistar devotos pra uma seita?
Continuo a leitura e percebo que o Yoga está lá caminhando junto com o hinduísmo, mas é diferente. Está mais para uma cultura, uma forma de viver do que uma religião, afinal, não tem nenhum profeta. É umDarshana, um ponto de vista filosófico que se basta pela riqueza, mas pega emprestada de outras escolas tradicionais indianas formas de interpretar o mundo e responder as questões mais profundas da existência humana.
Alívio. Pronto! Uma informação para ser dada sempre que acessar o link da memória-yoga. Assim é mais fácil explicar para os amigos que não praticam porque tantas transformações começaram a ocorrer comigo do lado de fora da sala de aula. Porque, de repente, resolvi não discutir mais por qualquer coisa, fui deixando de lado alguns hábitos que atrapalhavam minha prática matinal e resolvi virar uma ‘rata’ de yoga. Levava a sério o negócio do dharma.

Na fila do banco, aproveitava para ler um livro e não surtava mais quando alguém furava a fila no metrô. Agradecia antes das refeições. Andava exercitando bem mais que meus músculos, talvez um pouco da inteligência a meu favor e encaixava o contentamento, o espírito devocional e a verdade no meu dia-a-dia.
Logo, notei que a exigência e a competitividade que circulava no meu meio, nas amizades e no trabalho, não cabiam nas rodas de kirtans, nem no tapete e mais impressionante, em lugar nenhum. Queria muito e queria mais de tudo aquilo. Percebi que os professores a quem eu seguia e admirava estudavam com dedicação há anos e haviam abandonado o sentimento de urgência em conquistar o mundo e se importavam com conquistas mais nobres. Procuravam a total liberdade e em mostrar a possibilidade dessa felicidade aos demais.

Com o passar do tempo os nomes só se complicavam, assim como as minhas obrigações diárias.Brahmacharya, vairagya, viveka, hrih, japa, tapah, uma seqüencia diária matinal de surya namaskara, uma pitada de nadi sodhana pranayama, kapala bhati para limpar aqui, nauli para limpar ali, um jala neti, um sutra neti porque respirar o ar de Sampa não é fácil e o negócio foi tomando proporções abismais.
De repente, meu dia era composto por rituais que iam desde a limpeza aos cantos devocionais; da preparação da comida até a adoração do sol e da lua. Comecei a achar que estava me tornando uma pessoa um tanto primitiva. Primitiva, porém, em meio a shoppings, ipods, laptops, celulares, pen drives, etc. Sentia-me uma pessoa espiritualizada. Sentia-me mística. Uma mística importada da Índia no turbilhão paulistano.

Chuva forte. Alagamentos por vários pontos. Krishna Das tocando e me pego tamborilando os dedos no volante. Impaciência. Penso: qual será meu Prarabdha karma? O motoqueiro passa e chuta meu retrovisor. Adrenalina nas veias. Himsa! Manifestação única da raiva! Se eu pudesse chutava a bunda daquele miserável!
Caio na gargalhada. Como aquela situação me desestabiliza, rouba toda a paz que eu havia adquirido junto com o conhecimento da localização dos chackras e suas cores, os impronunciáveis nomes de ásanas, a ordem exata dos yamas e niyamas, os cinco vayus, os koshas, ida, pingala, sushumna,etc.

Acordo e abro a janela, respiro fundo o dióxido de carbono e a atmosfera pesada da cidade. Inocentemente imagino fazer uma prática ao ar livre e decido o local: Ibirapuera. Pego o carro e saio bem cedo num domingão de sol. Parece que não sou só eu que tive a ótima idéia. Chego e perco alguns minutos preciosos procurando uma vaga. Depois mais alguns procurando alguma nobre alma que venda o ticket zona azul. Quanta burocracia. E o parque começando a lotar. Praia de paulista. Cheio de verde. Rodeado pelas principais avenidas da cidade, com uma quantidade absurda de carros por todos os lados e aviões cortando o céu que é azul, eu sei, por trás de todo aquele cinza da poluição. Um cenário meio blade runner. Estico meu tapete e ao fazer o primeiro movimento do pescoço, uma bola de futebol acerta minha cabeça. Noto que há sempre uma oportunidade para ser testada a minha paciência. Penso como gostaria de estar numa ilha deserta, mas me lembro que o que eu penso que sou vai comigo.
Olho ao meu redor e vejo pessoas correndo, brincando, namorando, falando ao telefone, discutindo, vendedores ambulantes, crianças, cachorros, pais, mães, parentes de alguém, famílias, passos apressados, olhares pensativos e uma imensa avalanche de amorosidade e de cumplicidade com todos aqueles seres me invade. Observo o mahalila. Noto a urgência do ser humano na busca da felicidade.
Lembro-me daquele mantra: lokah samasta sukhino bhavantu. Todos querem a mesma coisa. A compaixão brota do centro do meu peito quando vejo uma criança cair da bicicleta e ralar o joelho. Por ela, pela mãe que se culpa por tê-la soltado. Pelo peixe que tenta respirar oxigênio no lago poluído. Pelas árvores que estão dando um duro danado para fazer as trocas gasosas. Sinto piedade dos cães neuróticos que vivem em espaços pequenos e só saem para passear poucas horas por dia.

O que oprime e traz sofrimento é não perceber-se como divino; é não notar a grandeza e a magnitude da existência. Lembro-me das notícias que vi antes de sair de casa. Mais acidentes, mais mortes e mais nascimentos. O mundo se comove e chora como há anos atrás e como irá chorar no próximo acontecimento.
E isso me dá esperança, pois percebo que no fundo, a natureza humana é puro amor e compaixão; cumplicidade e amizade. E a busca é, foi e sempre será pela paz. Agradeço com as mãos em frente ao peito, enrolo meu tapete e saio andando em meio à multidão de raças, cores e formas.

Namastê.

*Este texto foi escrito em junho/2009.
Juliana Araujo (Juju Priyah),ministra aulas no curso de formação de instrutores de yoga na Humaniversidade Holistica em São Paulo.

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