Em sua obra prima, Light on Yoga, B. K. S. Iyengar dedica um longo texto a śavāsana e descreve seus efeitos utilizando o verso 32 do primeiro capítulo do Haṭha Yoga Pradīpikā que diz:

Deitar-se em todo o comprimento com as costas sobre o chão, como um cadáver, se denomina śavāsana, remove a fadiga causada por outros āsanas e induz a calma na mente.

 

E o verso II do segundo capítulo do Geraṇḍa Saṁhitā:

Deitar nivelado no chão (sobre as costas) como um cadáver é denominado mṛtāsana. Esta postura destrói a fadiga e aquieta a agitação da mente.”

 

E prossegue Iyengar: ‘A mente é o senhor dos Indriyas (órgãos dos sentidos); o prāṇā (sopro da vida) é o senhor da mente.’ ‘Quando a mente está meditativa é chamadamokṣa (emancipação final, liberação da alma); quando prāṇā manas (a mente) foram absorvidos, resulta uma alegria indefinível.’ (versos 29 e 30, capítulo IV, Haṭha Yoga Pradīpikā)

“Dependemos dos nervos para domar o prāṇā. A respiração tranquila, suave e profunda sem nenhum movimento brusco do corpo alivia os nervos e acalma mente. O estresse da civilização moderna causa a extenuação dos nervos. Śavāsana é o melhor antídoto.”

 

No inverno de 1991 Allan Wallace foi do Sri Lanka até Pune fazer aulas no centro de yoga de B. K. S. Iyengar (RIMYI). Alan Wallace é estudioso, praticante e professor de meditação. Um dos poucos mestres budistas que ensinam śavāsana como uma postura legítima para a meditação. Dr. Wallace, compartilhando sua experiência de ser aluno de BKS Iyengar, conta que estava impressionado pela extraordinária precisão, insight, conhecimento e absoluta autoconfiança do mestre do yoga.

Ele o ouviu com muito cuidado e praticou assiduamente horas por 5 horas por dia, com aulas de 1 hora e meia dia de duração. De acordo com ele, um dos maiores presentes que recebeu de Iyengar, além de toda a variedade deāsanas que lhe foram ensinados, foi a importância de śavāsana, a postura do cadáver:

“(…) ele ensinou śavāsana com toda a precisão, com toda a seriedade com que ensinou até mesmo os āsanas mais avançados e mais difíceis. (…)

A postura física não é difícil: você se deita numa linha reta, com os braços a 30º do tronco, palmas das mãos para cima, cabeça sobre um cobertor. (…) Mas śavāsana não é apenas um descanso para o corpo. É também uma disciplina meditativa, bem na fronteira entre a prática de āsanas e a prática da meditação. E ele ensinava o que fazer com a mente naquela posição:

‘Você deve trazer sua mente diretamente para o momento presente e colocá-la em śavāsana. Você estabelece a mente no corpo, quieta, sem reagir, sem cogitar, sem esperar, sem temer, sem lembrar, sem planejar. Não há mais nada a fazer, exceto estar agora em śavāsana.

Se você quer meditar, sentar ereto em padmāsana ou em alguma outra postura de meditação formal, sentado com as pernas cruzadas, está tudo muito bem. Mas primeiro domine śavāsana; porque se você não dominaśavāsana, você não está pronto para meditação.’

 

“Śavāsana é uma forma de meditação, uma forma de cultivar a atenção plena, a consciência, a calma e a imobilidade. Não é cair no sono. É, definitivamente, um processo de cultivar a mente numa postura em que você pode colocar o corpo profundamente relaxado, sem desconforto, sem luta para manter-se na posição correta.

Essa é uma boa base para a meditação e os grandes mestres da tradição doyoga descobriram isso há séculos na Índia rural. (…) Com seu corpo profundamente relaxado, sua mente profundamente tranquila, você pode avançar e começar a meditar. Mas sem essa plataforma dada por śavāsana,você trará para a sua prática todo esse lixo da modernidade, atravancando sua prática de meditação. Então, eu sou um dos poucos professores de meditação que enfatiza fortemente isso. E, na verdade, você encontra nos ensinamentos do Buda sobre meditar sentado, deitado, em pé e caminhando, todas posturas legítimas para meditação.

Ao envelhecermos, pode ser que não tenhamos mais a habilidade de sentarmos numa postura apropriada para meditar por longos períodos. E então: paramos de meditar? Então, já agora, na plenitude da vida, aprender a meditar corretamente na posição de supino já estará nos preparando para podermos meditar bem eficazmente, mesmo em ocasiões em que estivermos doentes ou acamados.”

 

Abaixo a entrevista dada de Allan Wallace: