Na obra Árvore do Ioga[1], parte I – Ioga & vida, B. K. S. Iyengar leciona que yoga significa união: união do indivíduo com o Espírito Universal; união do corpo com a mente e da mente com a alma. O haṭha yoga conduz o praticante ao vislumbre da própria alma. “Ha” significa “sol”, neste contexto o sol do seu corpo, isto é, sua alma; “ṭha”significa “lua”, ou seja, sua consciência. Nesse sentido, o sol que há em nós, nossa alma, nunca enfraquece; ao passo que a mente ou consciência, que tira da alma sua energia, tem suas flutuações, modulações, estados de humor, altos e baixos, como as fases da lua.

O Haṭha Yoga Pradīpikā diz que o yoga é “prāṇa-vṛttinirodha”, isto é, acalmar as flutuações da respiração. Já o Yoga Sūtras de Patañjali afirma que yoga é “citta-vṛtti-nirodha”, isto é, acalmar as flutuações da mente. Tanto o Haṭha Yoga Pradīpikā quanto o Yoga Sūtras de Patañjali afirmam que controlar a respiração e observar seus ritmos aquieta a consciência: ao controlar a respiração, você está controlando a consciência e, ao controlar a consciência, você dá ritmo à respiração.

O yoga é tradicionalmente dividido em oito aspectos, chamados yama, niyama, āsana, prāṇāyāma, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna e samādhi. E como também pode ser dividido em três camadas – externa ou física, interna ou mental e íntima ou espiritual, podemos subdividir os oito aspectos do yoga em três grupos. Yama e nyama são as disciplinas social e individual; āsana, prāṇāyāma e pratyāhāra levam à evolução do indivíduo, ao entendimento da sua natureza; dhāraṇā, dhyāna e samādhi são os efeitos do yoga que criam condições para vislumbrar a alma.

O primeiro nível do yoga consiste no que pode ser chamado de regras para o que é permitido e para o que não é. Niyama nos diz o que devemos fazer pelo bem do indivíduo e da sociedade e yama o que deve ser evitado para não causar danos ao indivíduo e à sociedade. Ambas são disciplinas éticas presentes em todas as sociedades.

O segundo nível é o do desenvolvimento individual por meio da interpenetração corpo-mente-alma, estágio denominado sādhana ou prática e que engloba āsana, prāṇāyāma e pratyāhāra. Āsanas são as posturas praticadas com o corpo. Prāṇāyāma é a ciência da respiração. Pratyāhāra é silenciar os sentidos e mantê-los passivamente em suas posições ou direcioná-los para o interior da individualidade, para que possam assentar na essência do ser.

A terceira camada do yoga é descrita por Patañjali como o tesouro do yoga e trata-se do efeito ou fruto de sua prática: dhāraṇā, dhyāna e samādhi. Dhāraṇā é a concentração ou a atenção completa. Dhyāna é meditação. Sāmadhi é o ápice da prática do yoga: é o estado de graça e união com o Espírito Universal.

O yoga é uma ciência que libera a mente da pessoa do estado de prisioneira do corpo, encaminhando-a rumo à alma. Quando a mente alcança a alma e a ela se funde, a alma fica livre, permanecendo daí em diante em paz e em estado de beatitude.

Na parte II da Árvore da Ioga, A árvore e suas partes, Iyengar explica que em qualquer postura do yoga exigem-se (1) senso de direção e (2) centro de gravidade. Para manter o centro de gravidade, os músculos têm de estar todos alinhados uns com os outros. Se alguns músculos estiverem excessivamente estendidos, o centro de gravidade mudará e a dor irá se manifestar na parte sob a qual a consciência não está agindo.

Importante notar que cada pessoa se movimenta de acordo com sua própria memória e inteligência armazenadas. Para estar consciente dos movimentos é preciso meditar nas posturas. Se as executamos sem refletir enquanto as estamos praticando, estamos apenas nos concentrando e não meditando, de modo que um lado do corpo irá se comportar de modo diferente do outro.

Na prática podemos perceber que um lado do corpo é mais violento que o outro, que um é mais preguiçoso que o outro, um é mais alongado, um é mais forte e por aí vai.

Como praticantes podemos observar o esforço envolvido na realização da postura e continuar observando-o e, à medida que progredimos, veremos que esse esforço diminui a cada dia, embora o nível de realização do āsana esteja melhorando, conforme nos esforçamos na prática repetida do āsana, tentando aprendê-lo e assimilá-lo.

I.13 – tatra sthitau yatnaḥ abhyāsaḥ

II.46 – sthira sukham āsanam

Temos que fazer um esforço de entendimento e de observação. O yoga requer análise durante a ação. Análise durante a ação é o único guia. O avanço se dá por tentativa e erro. Enquanto houver dúvidas o esforço é maior porque existe oscilação. Quando se encontra o método certo o esforço se torna menor porque a energia que se dissipa pelas várias áreas é controlada e não há mais perdas. Quando sobrevém a ação ditada pela sabedoria, se sente o esforço como alegria.

O corpo não pode ser separado da mente, nem a mente pode ser separada da alma. Na Índia, a prática do āsana não se limita ao corpo físico. Ela envolve todos os oito níveis do yoga, de yama e nyama até sāmadhi. Quando se começa a trabalhar na execução dos āsanas, todos arranhamos apenas a superfície da postura: a ação conativa, isto é, a ação física no seu nível mais direto. Depois, quando já realizamos fisicamente a postura, a pele, os olhos, os ouvidos, o nariz e a língua – os órgãos da percepção – sentem o āsana, dando início ao segundo estágio da prática, a ação cognitiva.

O terceiro estágio é o da comunicação e tem início quando a mente observa o contato entre a cognição da pele e a conação da carne, assim chegando à ação mental do āsana. Nesse estágio a mente entra em ação e é atraída pelos órgãos da percepção na direção dos órgãos de ação, sentindo exatamente o que está acontecendo. A mente age como uma ponte entre o movimento muscular e a ação dos órgãos de percepção, introduzindo o intelecto e ligando-o a todas as partes do corpo – fibras, tecidos e células, dando surgimento a uma nova percepção. Observamos com atenção e lembramos a sensação da ação. Discriminamos com a mente. A mente discriminativa observa e analisa a sensação das diversas partes do corpo. Esse estágio é conhecido como ação reflexiva.

Finalmente, quando existe uma sensação total da ação sem quaisquer flutuações do alongamento, então a ação cognitiva, a ação mental e a ação reflexiva se reúnem todas para compor a conscientização plena. Essa é a prática espiritual do yoga, o estado mais elevado de contemplação no āsana, o que é conhecido como integração, descrita por Patañjali no terceiro capítulo do Yoga Sūtras, envolvendo a integração do corpo, da respiração, dos sentidos, da mente, da inteligência ou do conhecimento e do eu com a totalidade da existência.

É assim que os āsanas devem ser executados. É um processo para a vida toda.

 Namāskar!


[1] Ed. Globo, 4ª reeimpressão, São Paulo/SP.

Marcia Neves Pinto nasceu em Canoas/RS em 20/11/1962 e iniciou seus estudos de yoga em 2009, quando foi introduzida ao método Iyengar pela professora sênior Karin O’Bannon no 1º Retiro Internacional de Iyengar Yoga com Karin O’Bannon, julho/2009, Florianópolis/SC. É certificada como professora no nível Introdutório II pelo RIMIY, Pune/Índia e ABIY e leciona no Centro Iyengar Yoga Porto Alegre. Vem participando dos workshops dos professores Faeq Biria, Gabriela Giubillaro, Inga Gretzov, Jordi Marti, Karin O’Bannon, Lois Steinberg, María de Jesús Lorrío, Manouso Manos, Melodie Bachelor, Swati Chanchani, desde o ano de 2009. Participou do Intensifs d’été de Blacons/França em 2012 e 2014, com Faeq e Corine Biria, semanas 2, 3 e 4. Fez aulas regulares no RIMYI – Ramamani Iyengar Memorial Yoga Institute, Pune/Índia, no período de 1º a 31/01/2012. Ministra aulas de Iyengar Yoga no Centro Iyengar Yoga Porto Alegre/RS. Coordena o grupo de estudos “Encontros com Patañjali Yoga Sūtras” e “A Yoga do Bhagavad Gita” no Centro Iyengar Yoga Porto Alegre/RS.

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