*Por Bolivar Salermo

Tanto no que diz respeito à representação e simbologia das divindades nas diversas espiritualidades, quanto em relação ao tema da consciência, a visão que nos chega da Índia é muito diferente da que estamos acostumados a manejar aqui. Em relação às divindades, entende-se na Índia que sejam manifestações da inteligência criativa, presentes tanto na natureza quanto no corpo mente humano.

As divindades representam forças que sabemos serem reais: são os infindáveis rostos através dos quais a vida se manifesta, em todas as formas e seres. É por isso que há tantas divindades: através do polimorfismo reconhece-se a unidade subjacente em tudo e em todos. Já aqui no ocidente acredita-se que a divindade seja um fato, uma “personalidade e, desde esse ponto de vista, todos os nossos sistemas seriam idolátricos.

O mesmo acontece em relação à consciência: entende-se no ocidente que o cérebro seja a fonte da consciência. a visão védica entende que o cérebro seja um reflexo da consciência. Tudo o que conhecemos sobre a natureza, bem como vivências e impressões, é adquirido através dos sentidos e sua interação com o cérebro.

A noção de que todos somos fruto dessa mesma consciência além de tempo e espaço é a base de tudo na concepção védica. O Yoga, então, é uma prática que nos faz acordar para essa realidade, bem como para perceber a consciência ilimitada que somos. Pode ser complicado falar sobre isso pois, se dizemos que essa consciência é infinita, e a palavra infinito é um conceito, e conceitos estão dentro do tempo e do espaço, como poderíamos falar sobre algo que esteja fora dessas dimensões?

Como o infinito caberá dentro do finito? Como explicar o amor a quem nunca amou, por exemplo? Poderia lhe recomendar mil livros sobre o amor mas, se você nunca tivesse amado, esses livros não iriam lhe dizer nada. E depois se você se apaixonasse eu iria lhe perguntar: “as palavras que você leu, deram o mesmo que você sentiu ao amar?” O conhecimento da consciência, transcendendo tempo e espaço não pode ser descrito, pois não cabe em palavras ou conceitos: tentar fazer isso é incorrer em erro inevitáveis.

Mas então como saber se esse conhecimento é válido? É preciso estabelecer contato com ele, e quando isso acontece reconhecer a priori as verdades que ali residem. Da mesma maneira que quem já amou reconhece o amor em palavras, qualquer pessoa irá reconhecer o conhecimento da consciência como algo que não é diferente de si mesmo. Então por isso creio que o Yoga possa ser equiparado à religião, pois nos religa à nossa natureza de maneira a estarmos sempre em contato com nós mesmos e assim agirmos no mundo da maneira mais adequada.

Um dos aspectos mais interessantes disto é que o Yoga não é nivelador: leva cada um para um lugar, entende que cada pessoa tem um perfil e um papel a desempenhar, e que cada um deve descobrir qual é esse papel, chamado svadharma. O Yoga exclui atitudes passivas: é preciso descobrir viver, aplicar a visão.

Por outro lado, gostaria de deixar claro que pessoalmente não gosto de associar o Yoga à palavra religião, para além dos limites do que já foi colocado acima. Talvez o Yoga e as religiões abraâmicas utilizem de fato termos similares mas, consonante ao início deste texto, a interpretação dada a tais termos é radicalmente oposta. Assim entendo que a compreensão do tema fica mais fácil se não misturarmos as coisas, lembrando ainda que cada um tem o direito de estudar e se referir às coisas como entender melhor.

Vejo o Yoga como uma parceria para a vida. Não é preciso desconfiar, pois qualquer dúvida é bem-vinda e encorajada à expressão aos professores. Religiões têm crenças e dogmas: o Yoga estimula o debate e o espírito crítico. É possível escrever ou ler muito, mas precisamos pensar.

Quantos anos caminhamos procurando e explorando o mundo, e quantos de nós acharam respostas satisfatórias? O Yoga acontece para quem pratica e compreende. Praticar sem estudar não tem valor. Estudar sem praticar, tampouco. Se você só estudar e não praticar pode cair no dogmatismo, na rigidez e no orgulho. Se você só praticar, pode se desviar do rumo, confundir meios e fins e perder de vista a meta que é mokṣha, a liberdade. Deixo o amigo leitor com uma citação da Īśā Upaniṣad, para reflexão:

Em noite de trevas vivem aqueles
para quem somente o mundo exterior é real.
Em trevas ainda mais escuras vivem
aqueles para quem apenas o mundo interior é real. 9.

O primeiro conduz a uma vida de ação.
O segundo, a uma vida de contemplação. 10.

Porém, aqueles capazes de combinar ação e
contemplação, atravessando o mar da morte pela ação,
alcançam a imortalidade através da contemplação.
Assim ouvimos dos sábios que nos instruíram. 11.

Bolivar H. Salermo, é yogui e mora em Itajaí/SC

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