Então, como diz Rohit Mehta, a questão fundamental na cessação das oscilações da mente é, portanto, como prevenir a continuidade incessante do fluxo pensamento-emoção? É a extensão de uma experiência, mesmo após o acontecimento ter passado, que causa estresse e tensão em nossa psique. Os vṛttis são, na verdade, os produtos do prolongamento da experiência no tempo. Indica Patañjali no sūtra I.12 como por fim aos vṛttis: abhyāsa-vairāgybhyāṃ tam nirodhaḥ.

Na tradução de Iyengar, “prática e desapego são os meios para acalmar os movimentos da consciência”. Estudar a consciência e acalmá-la é prática. Abhyāsa significa a prática repetida do yoga.

Vairāgya é a prática através da qual o sādhaka aprende a ser livre dos desejos e paixões e a cultivar o desprendimento das coisas que obstruem a persecução de união com a alma. Na tradução de Iyengar, “a renúncia é a prática do desligamento dos desejos” (I.15 – dṛṣṭa ānuśravika viṣaya vitṛṣṇasya vaśikārasañā vairāgyam). Quando a não ligação e o desligamento são aprendidos, não há mais desejo pelos objetos vistos ou não vistos, palavras ouvidas ou não ouvidas. Então o observador permanece insensível às tentações. Este é o sinal da maestria na arte da renúncia, não só de prazeres mundanos, mas também celestiais.

A prática é o aspecto positivo do yoga. Desapego ou renúncia o negativo. A prática é o caminho da evolução; desapego ou renúncia o caminho da involução. A prática está envolvida em todos os oitos membros do yoga e a prática evolucionária é a marcha em direção à descoberta do Self, envolvendo yama[1], niyama[2], āsana e prānayama. Já o caminho involucionário da renúncia envolve pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna e samādhi[3]. Essa jornada rumo ao interior separa a consciência dos objetos exteriores.

Para ser um adepto do yoga, yama e niyama têm de ser observados cuidadosamente ao longo da prática e da vida. Isto é abhyāsa. O descarte de ideias e ações que obstruem o progresso na prática é vairāgya. Esta fórmula da prática e do desprendimento aparece reiteradamente na disciplina espiritual hindu, como se pode ver no Bhagavad Gītā e nas Upaniṣads. Mas a prática e o desprendimento têm que coexistir, denotando um estado de relaxamento em meio à tensão, de inação no meio da ação, de silêncio na existência do barulho.

O desprendimento é uma condição livre de todos os motivos, sejam aqueles que surgem de um desejo por alguma coisa que tenha sido experimentada ou por algo que ainda não foi experimentado (I.15). Desprendimento é, ainda, uma condição na qual não há motivo para repetição do passado nem para antecipação do futuro. Assim, é um estado de viver no presente – não tanto no presente cronológico quanto no psicológico, no sentido de que viver no presente significa descobrir a cada momento a direção que damos à nossa vida.

Portanto, conclui Rohit Mehta, abhyāsa é um movimento bem direcionado e vairāgya é aquele estado dinâmico de viver no presente, onde a direção é descoberta a cada momento. E assim, quando esses dois coexistem, há movimento de vida, na qual se manifesta o notável fenômeno da descontinuidade em meio à continuidade. Vairāgya é um estado de descontinuidade psicológica mesmo que abhyāsa seja um fenômeno de continuidade. É no desapaixonamento que o esforço envolvido na prática descobre seu propósito de momento a momento.”

O caminho para a coexistência da prática e do desapaixonamento sugerido por Patañjali é o percebimento do pensador e dos movimentos de seu pensamento. (…) estar ciente do pensador é o mesmo que estar ciente da continuidade do pensamento. Esta continuidade do pensamento ocorre através das atividades das três guṇas ou atributos.” [4]

O sūtra (I.16) diz que, “conscientes da mente e de suas atividades, chegamos a um estado de real vairāgya, significando, obviamente, que a mente não interfere na ação das guṇas. Deixá-las agir sem intervenção da mente é a forma mais elevada de desapego. No funcionamento normal da três guṇastamas, rajas e sattva – o que se manifesta são as características da estabilidade, mobilidade e harmonia respectivamente. (…) Mas quando a mente interfere com a atividade das guṇas, então ocorrem distorções, de forma que a estabilidade torna-se estagnação, a mobilidade, torna-se atividade inquieta e a harmonia é transformada em auto-satisfação. Quando se permite que as guṇas funcionem sem a interferência da mente, pode-se observar a coexistência da prática e do desapaixonamento, da ação e da inação. Assim, é possível a reta percepção das coisas (…). Desapegar a mente da ação das guṇas é o que descrito como vairāgya. A fim de realizar este desapego, é preciso tornar-se cônscio das atividades da mente com referência a estas guṇas. (…) As tendências reativas nascem quando, nas esferas de funcionamento das guṇas, a mente estabelece seus próprios centros. É assim que a estabilidade transforma-se em estagnação, a mobilidade em inquietação e o repouso ou harmonia em farisaísmo.

Estar cônscio destes centros de pensamento formados nas esferas de funcionamento das guṇas não apenas é o caminho para a coexistência da prática e do desapaixonamento, mas também um caminho para a dissolução dos próprios centros que são os procriadores dos vṛttis. Dissolver esses centros formados na região das guṇas é o verdadeiro propósito do Yoga.”[5]

Namaskar!

[1] Yama são as cinco disciplinas éticas de não-violência, verdade, não roubar, continência e não cobiçar.

[2] Niyama são as cinco observâncias éticas de pureza, contentamento, auto disciplina, auto estudo (estudo do Self) e rendição a Deus.

[3] Os oito membros estão listados no sūtra II.29.

[4] Rohit Mehta, Yoga – a arte da integração, Editora Teosófica, Brasília/DF, 1995, p. 28.

[5] Rohit Mehta, Yoga – a arte da integração, Editora Teosófica, Brasília/DF, 1995, p. 28/29.